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27 março 2020

Trump, o «vírus chinês» e o direito à saúde

Tempo de leitura: 12 min
Nos EUA, a saúde não é um direito. O serviço de saúde é uma mercadoria que se tem de pagar. Há muito que o presidente dos EUA ridiculizava a ameça do coronavírus, o «vírus chinês», como lhe chamou de forma depreciativa. Nas últimas semanas teve de mudar o seu tom e a estratégia de acção.
Paolo Moiola
Jornalista
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«Os Americanos têm de parar de ter medo de ir ao médico porque não têm dinheiro para pagar a visita. Esperamos que experiências como a minha possam ajudar a encontrar soluções adequadas.»

Esta frase remata um artigo no The Miami Herald, um conhecido jornal conservador (pró-Trump) da Florida. A peça conta a história de Osmel Martinez Azcue. O homem, regressado da China, submeteu-se a testes de diagnóstico para o novo coronavírus (SARS-CoV-2) e recebeu uma factura de 3270 dólares dos quais 1400 tinham de ser pagos pelo próprio (uma espécie de dedutível). O escândalo levou a companhia de seguros e o hospital (o Jackson Memorial Hospital) a recuar.

O episódio com final feliz não deve, no entanto, ser enganador. O problema da saúde no país mais rico do mundo é real e a pandemia de covid-19 está a desmontá-lo. Como se sabe, 27,5 milhões de americanos (8,5 % do total da população) não têm seguro de saúde, e mesmo aqueles que o possuem não têm a certeza de terem uma cobertura abrangente e fiável. Um assunto que os autores das populares «séries médicas» que se produzem para os canais de televisão dos EUA – e que também se podem ver nos canais europeus – não se esquecem de mencionar.

 

trump4Donald Trump quer reabrir os EUA «até à Páscoa» (Foto: Lusa)

 

Do alto da sua megalomania e entusiasmo pela quase certa reeleição (considerando a confusão e indefinição que existe entre os candidatos do Partido Democrata), antes de quarta-feira, 11 de Março, Donald Trump não tinha considerado seriamente a variável covid-19.

Anteriormente, o presidente dos EUA já tinha abordado o assunto. Primeiro, fê-lo tendo em conta o seu aproveitamento político (as eleições de Novembro) e, posteriormente, referiu-se ao tema com bastante altivez. No dia 28 de Fevereiro, em Charleston, Carolina do Sul, durante uma pausa na campanha, Trump tinha relacionado a propagação do coronavírus e a construção do muro com o México (um dos seus principais campos de batalha): «Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar que a infecção e as pessoas que transportam a infecção entrem no nosso país. Não temos escolha. Quer estejamos a falar do vírus ou de muitas outras ameaças à saúde pública. A política democrática das fronteiras abertas constitui uma ameaça directa à saúde e ao bem-estar de todos os americanos. Hoje estamos a vê-lo com o coronavírus» (The Washington Post).

Pouco importou que os especialistas e o director do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) tivessem deixado claro que não há evidências desta correlação e que os países da América Latina são, pelo menos por enquanto, os menos afectados pela pandemia.

 

trump2Rodeado pelo grupo de trabalho de resposta à pandemia causada pelo coronavírus, Donald Trump responde às perguntas dos jornalistas, numa conferência de imprensa na Casa Branca (Foto: Lusa)

 

Continuando esta breve crono-história do comportamento (inadequado e superficial) do presidente dos EUA, chegamos a 4 de Março. Numa entrevista telefónica com o seu querido canal televisivo Fox News, Trump contesta a taxa de mortalidade do coronavírus divulgada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). No dia 10, regressa aos migrantes com o inevitável Twitter: «Precisamos do muro, agora mais do que nunca.»

Na quarta-feira, Trump anunciou a suspensão dos voos para a Europa, depois de ter acusado os países do Velho Continente de incapacidade. Um discurso que, certamente, não é de um estadista e de um (alegado) aliado do Ocidente, mas que no interior do país desperta o entusiasmo de alguns. «Grande e ousado, optimista e compassivo. O discurso da Sala Oval do Presidente Trump era exactamente o que a América precisava de ouvir», escreve o colunista Michael Goodwin no The New York Post, um jornal populista e pró-Trump, um dia depois do anúncio do presidente. E conclui: «A América sabe agora que tem um presidente comprometido com a vitória. Isso é o que importa.»

No mesmo discurso do dia 11 de Março, Trump anunciou um acordo com as companhias de seguros de saúde, um pesadelo para quase todos os norte-americanos (os assegurados, os que têm um seguro limitado e aqueles – os já recordados 27,5 milhões – sem seguro). Segundo o presidente, as empresas teriam (o condicional é de obrigação) concordado em pagar integralmente os eventuais tratamentos e a chamada «facturação surpresa» («surprise billing», factura que se emite quando as consultas médicas são feitas fora das instalações que pertencem à própria rede de seguros).

Realmente, não se sabe com clareza se as companhias de seguros norte-americanas cobrirão os custos dos testes ou apenas os gastos (milhares de dólares) de um possível tratamento médico. Muitos meios de comunicação norte-americanos (incluindo o canal CNN e o jornal Politico) argumentam, por exemplo, que muitas empresas estão dispostas a pagar pelos testes, mas não pelos tratamentos.

Em suma, tem de se admitir que, no que diz respeito ao direito à saúde, se fizermos uma comparação com os Estados Unidos (onde os serviços de saúde são tratados da mesma forma que qualquer outra «mercadoria») os sistemas de saúde dos principais países europeus estão anos-luz à frente.

Finalmente, chegamos a sexta-feira, dia 13 de Março, quando o presidente dos EUA declara o estado de emergência nacional, para «impedir a expansão do vírus», e promete que serão realizados milhões de testes de diagnóstico. Agora, muitos aguardam e esperam poder fazer um teste que não tinha sido orçamentado: no dia 4 de Fevereiro, em frente ao Congresso, Donald Trump tinha feito um discurso triunfante. A propagação do novo coronavírus está a sobrecarregar todos os aspectos do dia-a-dia, mesmo nos Estados Unidos, a começar pelos índices de Wall Street.

 

trump3Donald Trump ordenou a instalação de hospitais de campanha nos estados de Nova Iorque, Washington e Califórnia, os mais afectados pelo novo coronavírus (Foto: Lusa)

 

No dia 27 de Março, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins, que tem feito uma actualização constante dos números mundiais da epidemia, existem cerca de 86 mil casos confirmados em território norte-americano e 1296 mortos. Um mês e meio depois dos primeiros casos, e com uma estratégia incerta e lenta, os Estados Unidos ultrapassavam a China e a Itália no número total de infectados com o novo coronavírus e tornavam-se no país com mais casos confirmados da doença do mundo. Uma situação preocupante, apesar de que Donald Trump previa que os EUA voltariam ao trabalho «muito rapidamente» («antes da Páscoa»). No dia 27 de Março, Trump disse ao presidente chinês Xi Jinping que os países devem «unir-se contra a pandemia» e escreveu na sua conta oficial no Twitter que tem «muito respeito» pela China e que esta «passou por muita coisa e desenvolveu um forte entendimento do vírus». «Estamos a trabalhar juntos», acrescentou Donald Trump.

Em tudo isto, o presidente – que afirmou ter também feito o teste (o resultado foi negativo) – teve de suspender a campanha eleitoral. Politico, um jornal diário liberal, na coluna denominada «Trumpology», fez a seguinte pergunta: «O que é Trump sem as suas multidões?» É certo que permanece a televisão (Fox News, em primeiro lugar) e especialmente o Twitter, que usa como soberano absoluto, mas a relação directa e quase física com os seus eleitores continua a ser essencial para alimentar o seu mito e o seu imenso ego.

Será que a covid-19 vai forçá-lo a reduzir a maior parte das suas mentiras? No programa Facts First (Primeiro, os factos) do passado dia 22 de Março, a CNN contou e descreveu 33 ocasiões (ocorridas no período de 2 de Março a 15 de Março) em que Trump e a sua equipa foram desonestos sobre o coronavírus.

O jornal Washington Post, na coluna «The Fact Checker» cataloga as mentiras dos políticos com uma ilustração muito familiar para nós, europeus, a do Pinóquio. Um Pinóquio desenhado com nariz comprido (obviamente) e roupas com estrelas e riscas. Ali, o Presidente Trump é sempre apresentado com a pior classificação: quatro Pinóquios e uma única palavra «whoppers» («grandes mentiras»).

 Mas as surpresas ainda não acabaram. Na noite de domingo, dia 15, a imprensa alemã noticiou que o Presidente Trump teria feito à CureVac, uma empresa biofarmacêutica de Tobingen que está a trabalhar numa vacina, uma enorme oferta para estudar e produzir a possível cura apenas para os Estados Unidos. Em exlusivo. A notícia foi negada pela CureVac, mas já tinha admitido anteriormente no seu site oficial que se tinha reunido com o Presidente dos EUA e a sua equipa no dia 2 de Março. Confirma-se – infelizmente – o que a CNN (com Christiane Amanpour) comentou: Donald Trump está a dar razão àqueles que dizem que «ninguém seguirá um dirigente que tem como modelo a filosofia do "primeiro eu"». 

A CNN (a 19 de Março) também comentou – com evidente sarcasmo: «Estamos à espera de que Donald Trump peça à China que pague pela pandemia, tal como o México deve pagar pelo muro.»

O contexto excepcional e dramático do novo coronavírus está a expor situações anteriormente ocultas pela propaganda e a desinformação. Hoje, Donald Trump, presidente tão amado por alguns políticos europeus e latino-americanos (Bolsonaro, do Brasil, em primeiro lugar), é um «rei que vai nu». Despido pelo «vírus chinês».

Apesar de todos estes factos, a popularidade de Trump é a mais alta de sempre nos Estados Unidos (segundo as sondagens de Gallup e Monmouth). Os norteamericanos «pelo menos até agora, gostam do que estão a ver» (CNN en Espanhol, 26 de Março). Mais um dos mistérios na tragédia que o mundo está a viver.

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EDIÇÃO
Maio 2020 - nº 702
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