Opinião
15 janeiro 2026

A revolução silenciosa que poderia mudar o mundo

Tempo de leitura: 4 min
Reflexão sobre a unidade dos cristãos no âmbito da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que se celebra de 18 a 25 de Janeiro, com o lema «Há um só corpo e um só Espírito, assim como fostes chamados a uma só esperança – a da vossa vocação», da carta de São Paulo aos Efésios (4, 4).
Sérgio Carvalho
Professor e jornalista
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Num tempo marcado por guerras, polarizações e cansaço moral, o que aconteceria se os 2300 milhões de cristãos espalhados pelo mundo redescobrissem que, antes de serem católicos, ortodoxos, protestantes ou evangélicos, são discípulos do mesmo Senhor? E se voltassem a ser, visivelmente, uma só Igreja? Não se trata de um exercício de ingenuidade religiosa, mas de uma pergunta profundamente realista num mundo que já não acredita em palavras vazias, mas ainda se comove com sinais de unidade.

A divisão entre os cristãos não é apenas um problema interno das Igrejas. É uma ferida aberta no próprio testemunho do Evangelho. Jesus, na véspera da sua Paixão, rezou assim: “Que todos sejam um, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti” (Jo 17,21). Esta oração não é um detalhe piedoso, mas parte do coração da fé cristã. A desunião enfraquece a credibilidade da mensagem e torna menos audível a Boa Nova da reconciliação.

Se os cristãos voltassem a ser uma só Igreja, o mundo veria algo raro: comunidades diferentes, com histórias e sensibilidades diversas, capazes de viver a unidade sem apagar a diversidade. O Concílio Vaticano II reconheceu que “a divisão dos cristãos contradiz abertamente a vontade de Cristo e constitui um escândalo para o mundo” (Unitatis Redintegratio, 1). A unidade, portanto, não é um luxo teológico, mas uma urgência missionária.

Num mundo assim reconciliado, o anúncio do Evangelho ganharia uma nova força. As palavras de São Paulo — “Há um só corpo e um só Espírito” (Ef 4,4) — deixariam de soar como ideal distante para se tornarem uma experiência concreta. A voz dos cristãos em defesa da vida, da dignidade humana, dos pobres, dos migrantes e da paz teria um peso moral incomparavelmente maior. A caridade deixaria de ser fragmentada e passaria a ser um grande rio, alimentado por muitas fontes, mas com uma só direcção.

O Papa São João Paulo II lembrava que o ecumenismo não é estratégia diplomática, mas caminho espiritual: “A unidade querida por Deus só pode realizar-se na adesão comum ao conteúdo integral da fé revelada” (Ut Unum Sint, 18). Essa unidade não significa uniformidade, mas conversão do coração, purificação da memória e coragem de reconhecer erros históricos. Significa aprender a caminhar juntos, mesmo quando ainda não pensamos tudo do mesmo modo.

Se os cristãos fossem novamente uma só Igreja, o mundo talvez não se tornasse imediatamente justo ou pacífico. Mas teria diante de si um sinal poderoso de esperança. Num tempo que absolutiza as diferenças e transforma discordâncias em muros, a unidade cristã seria uma profecia viva: a prova de que é possível discordar sem se destruir, dialogar sem se diluir, acreditar sem excluir.

Talvez o mundo não precise de mais discursos religiosos, mas de um gesto claro. E esse gesto começa quando os cristãos levam a sério a oração de Cristo e ousam acreditar que a unidade não é um sonho impossível, mas uma responsabilidade confiada por Deus à sua Igreja.

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