Opinião
11 maio 2026

Rezar ou matar

Tempo de leitura: 4 min
«Quem reza não mata.» Este não é um slogan piedoso. É uma linha de fronteira.
Sérgio Carvalho
Professor e jornalista
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Há uma mentira confortável que repetimos até acreditarmos nela: queremos a paz. Contudo, não é verdade!
O que queremos é tranquilidade, estabilidade, silêncio, mas sem pagar o preço da paz. E foi precisamente na vigília de oração do Rosário pela paz, a 11 de Abril, na Basílica de São Pedro, que Leão XIV desmontou esta ilusão com palavras que não deixam espaço para neutralidades.

Ali, diante de uma Igreja em oração, o papa não ofereceu diplomacia, mas o Evangelho em estado puro: a paz nasce da cruz, do amor que se dá até ao fim. Este é o escândalo que recusamos: não há paz sem ruptura interior. Preferimos discursos equilibrados, indignações controladas, soluções rápidas. Mas a lógica cristã é outra, segundo a qual não há reconciliação sem sacrifício, não há encontro sem verdade, não há paz sem conversão. E, depois, espantamo-nos com a guerra.

Naquela vigília, o papa foi ainda mais ao fundo da questão: a guerra não começa nas fronteiras, começa no coração. Nasce da idolatria do poder, do dinheiro, do ego. Cresce na indiferença… Alimenta-se da incapacidade de reconhecer o outro como irmão. Por isso, talvez o problema não esteja «lá longe». Está aqui. Está em cada um de nós.

No coração daquele momento de oração, surgiu a proposta que desarma qualquer estratégia humana: a oração do Rosário. Para muitos, pouco. Para o papa, essencial. Porque a paz não começa nos tratados, começa na conversão. Não nasce nas mesas de negociação, nasce de joelhos dobrados em oração.

Foi também ali que ecoou uma das frases mais duras e verdadeiras: «Quem reza não mata.» Este não é um slogan piedoso.
É uma linha de fronteira. Ou se entra numa relação real com Deus — e isso transforma a forma de viver — ou se continua, de modo mais subtil, a alimentar a mesma lógica de violência que se condena à distância. Não há um meio-termo confortável.

O mais incómodo é que continuamos a pedir paz enquanto cultivamos divisão. Falamos de diálogo enquanto nos fechamos em trincheiras. Exigimos líderes que reconciliem, mas recusamos dar o primeiro passo nas nossas próprias relações. Queremos um mundo pacificado, mas continuamos com corações endurecidos.

Na vigília de 11 de Abril, o papa não falou para os outros. Falou para nós. A paz constrói-se no concreto: na palavra que não fere, na escuta que não julga, no perdão que custa. Não se constrói nos grandes palcos, mas no quotidiano invisível. É aí que a guerra começa a ser vencida ou alimentada.

Talvez o verdadeiro problema não seja a ausência de paz, mas a ausência de vontade de mudar. Porque a paz exige perda: de ego, de razão, de controlo. E isso poucos aceitam.

No fim, fica uma escolha nua, exposta naquela noite de oração: rezar ou matar. Não necessariamente com armas, mas com palavras, gestos, indiferença. E, talvez, a única pergunta honesta seja esta: de que lado estamos?

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Maio 2026 - nº 768
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