Opinião
01 maio 2026

Preservar as vozes e os rostos humanos

Tempo de leitura: 4 min
Precisamos que o rosto e a voz voltem a significar pessoa. Precisamos preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do Homem.
Ir. Bernardino Frutuoso
Director
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Num cenário tecnodigital em rápida evolução, a inteligência artificial (IA) está cada vez mais presente na nossa vida. Em 2023 assisti a uma conferência de Yuval Noah Harari em que o filósofo, professor e escritor partilhou as suas perspectivas sobre o futuro da Humanidade e a relação entre inteligência humana e artificial. Falou sobre os desafios e as ameaças iminentes que a «disrupção tecnológica» representa para a mente humana e a democracia. Sustentou que a IA generativa não é uma ferramenta, mas um agente, pois «é a primeira tecnologia na História que consegue criar ideias e tomar decisões por si própria», o que pode retirar o poder das mãos humanas, daí a necessidade da sua regulação. Posteriormente, na obra Nexus, História Breve das Redes de Informação da Idade da Pedra à Inteligência Artificial (2024), Noah Harari menciona alguns atributos da IA: o potencial de criar redes de informação que destroem o diálogo humano através de algoritmos que, com a sua lógica, priorizam o envolvimento (muitas vezes via desinformação) em vez da verdade; permite uma vigilância e controlo sem precedentes, pois os algoritmos podem decidir quem tem, por exemplo, acesso a direitos básicos ou emprego; pode criar cultura (vídeos, imagens, música, textos, leis).

É sobre o impacto da IA, cujo desenvolvimento pode «alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana»», que Leão XVI nos propõe reflectir a propósito do Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado este ano a 17 de Maio. A mensagem papal, que tem como tema «Preservar as vozes e os rostos humanos», lembra que «o rosto e a voz são traços únicos e distintivos de cada pessoa; manifestam a sua identidade irrepetível e são elemento constitutivo de cada encontro». Consciente de que o desafio de preservar o humano não é tecnológico, mas antropológico, o pontífice apela a uma aliança baseada em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação.

Responsabilidade, que diz respeito a todos os intervenientes e agentes, «pode ser definida, consoante as funções, como honestidade, transparência, coragem, visão, dever de partilhar conhecimento, direito de ser informado. Porém, em geral, ninguém pode fugir à sua responsabilidade diante do futuro que estamos a construir».

Cooperação com vista à construção e execução de «uma cidadania digital informada e responsável», já que nenhum sector é capaz de criar sozinho «mecanismos de salvaguarda» que permitam «enfrentar o desafio de impulsionar a inovação digital e a governança da inteligência artificial».

Educação — incluindo alfabetização mediática, informacional e em IA —, de modo a «aumentar as nossas capacidades pessoais de reflectir criticamente, avaliar a credibilidade das fontes e os possíveis interesses por trás da selecção das informações que nos chegam, compreender os mecanismos psicológicos que elas activam».

Neste admirável mundo novo, clama Leão XIV, «precisamos que o rosto e a voz voltem a significar pessoa. Precisamos preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do Homem, à qual devemos orientar também toda a inovação tecnológica».

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Editorial
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EDIÇÃO
Maio 2026 - nº 768
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