Opinião
11 junho 2026

Inspirar-nos na Natureza

Tempo de leitura: 4 min
Precisamos de mais Natureza, mais justiça climática, maior participação, mais eficiência material, maior responsabilidade pública.
Francisco Ferreira
Associação ZERO e Professor no CENSE/FCT-NOVA
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O Dia Mundial do Ambiente de 2026 desafia-nos a um olhar diferente para a Natureza. Não como um cenário ou uma reserva disponível para exploração, mas como uma condição essencial da nossa sobrevivência. Este ano, as Nações Unidas procuram que este dia seja «Inspirado na Natureza. Pelo Clima. Pelo Nosso Futuro». Mais do que um lema feliz, estas palavras são uma síntese do que falhou e do que ainda pode ser corrigido. A crise climática, a perda de biodiversidade, a degradação dos solos, a poluição e o desperdício de recursos não são problemas separados; são manifestações de um mesmo modelo que continua a confundir desenvolvimento com consumo ilimitado. 

Portugal conhece bem esta contradição. Em 2026, o país entrou em sobrecarga ecológica a 7 de Maio. Isto significa que, se toda a Humanidade tivesse os recursos disponíveis que o nosso país tem e vivesse como a média da população portuguesa, seriam necessários cerca de 2,9 planetas para sustentar esse modo de vida.
A ligeira melhoria face ao ano anterior (dois dias mais tarde), não deve iludir-nos. Estabilizar no início de Maio é continuar a viver oito meses por ano a crédito ambiental. A factura é conhecida. O consumo alimentar, a mobilidade, a dependência energética, o uso excessivo de materiais e a cultura do descartável empurram-nos para uma dívida que não aparece nas contas públicas, mas que se acumula nos ecossistemas, na saúde, na qualidade do ar, na escassez de água, na vulnerabilidade aos incêndios, nas ondas de calor e na perda de resiliência dos territórios.

Inspirar-nos na Natureza implica mudar a forma como planeamos. Na Natureza, os resíduos de uns deveriam ser recursos de outros; os sistemas equilibram-se pela diversidade; a eficiência não deveria resultar em pressa, mas em adaptação. Nas nossas sociedades, pelo contrário, continuamos a premiar o uso rápido, a substituição permanente, a dispersão territorial, a mobilidade intensiva e a transformação de bens comuns em oportunidades privadas de curto prazo.

Por isso, o Dia Mundial do Ambiente não pode ser apenas uma data de sensibilização. Tem de ser um momento de exigência política. A acção climática exige energias renováveis, mas também ordenamento, participação, avaliação rigorosa e respeito pelos territórios. Exige cidades mais próximas, transportes públicos eficazes, redes cicláveis seguras, edifícios eficientes e confortáveis, dietas mais equilibradas e uma economia assente na durabilidade, reparação e reutilização. Com a actual crise associada ao preço dos combustíveis fósseis, percebemos ainda melhor como podemos ter uma dupla vitória se apostarmos definitivamente em fontes de energia renovável, reduzindo custos e emissões. Celebrar este dia é reconhecer que o futuro será salvo por escolhas concretas. Precisamos de mais Natureza, mais justiça climática, maior participação, mais eficiência material, maior responsabilidade pública.
A Natureza não pára de nos avisar. Precisamos de transformar inspiração em política, economia e prática quotidiana que nos conduza a um planeta e a uma sociedade mais resilientes.

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EDIÇÃO
Junho 2026 - nº 769
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