Opinião
23 julho 2026

Entre o Algoritmo e a Luz: Onde Construímos a Nossa Morada?

Tempo de leitura: 3 min
O desafio actual é claro: não permitir que a tecnologia nos isole em torres de orgulho, mas utilizá-la para abrir novas janelas de vida e de encontro.
P. Fernando Domingues
Missionário Comboniano
---

Vivemos mergulhados na era da inteligência artificial, ferramentas digitais de capacidades extraordinárias que nos colocam perante um dilema profundo: usaremos este poder para erguer uma nova Babel — uma civilização desumanizada e sem Deus — ou para edificar a Jerusalém de Deus, uma cidade que humaniza as pessoas através do Evangelho?

O Papa Leão XIV, na encíclica Magnífica Humanidade (ver n.º 1 e 7), convida-nos a ver claramente os “tijolos” que constroem «a torre de Babel»: a ausência de Deus — a Humanidade que tenta construir uma civilização «sem limites e sem Deus», confiando apenas nas suas próprias capacidades técnicas; a desumanização: — o uso desregrado ou puramente técnico destas ferramentas que pode levar a desumanizar a vida, tornando as relações entre pessoas frias e distantes; a soberba — verdadeira “torre” de orgulho, onde o progresso tecnológico é visto como um fim em si mesmo, desligado de valores éticos ou espirituais.

Ele também nos mostra como construir a «Jerusalém de Deus»: Jesus no centro: — a vida da cidade e o uso da tecnologia têm como centro Jesus e o Seu Evangelho; a tecnologia com propósito — as ferramentas digitais e a inteligência artificial são usadas como instrumentos para melhorar as condições de vida de toda a «família humana», guiadas pelos princípios do respeito e do amor; a sabedoria do coração — em vez da embriaguez tecnológica, procura-se uma vida «autenticamente humana e profundamente cristã» em que o digital é ferramenta e não finalidade.

O segredo para não nos deixarmos “embriagar” pelo entusiasmo superficial da tecnologia reside na sabedoria do coração. Onde encontrar a bússola para este caminho? Surpreendentemente, a resposta não está na complexidade dos dados, mas na simplicidade dos gestos e na fraternidade vivida. 

Leão XIV, no seu texto Amei-te, n.º 21, recordava-nos que Jesus nos indicou com clareza a Sua companhia preferida: os pobres e os simples; eles «sempre estarão connosco» (cf. Mt 26, 8-11). São o «lugar favorito» para encontrarmos Jesus.  Ao olharmos para os mais desfavorecidos, e para as maneiras como vivem a fé, encontraremos a sabedoria do evangelho e sentiremos a presença viva de Deus.  Ela manifesta-se nas nossas devoções populares. No silêncio de Fátima, na alegria das romarias ou na tradição de uma procissão paroquial, vivemos a fé de forma simples, mas autêntica e profunda. Estes rituais dos “nossos antigos” não são apenas passado; são caminhos simples de encontro real com Cristo e de comunhão entre nós.

O desafio actual é claro: não permitir que a tecnologia nos isole em torres de orgulho, mas utilizá-la para abrir novas janelas de vida e de encontro. Ao colocarmos Jesus e o Seu Evangelho no centro, transformamos as ferramentas digitais em instrumentos de uma Humanidade que é, simultaneamente, plenamente moderna e profundamente cristã.

Partilhar
---
EDIÇÃO
Julho e Agosto 2026 - nº 770
Faça a assinatura da Além-Mar. Pode optar por recebê-la em casa e/ou ler o ePaper on-line.