Opinião
16 maio 2026

Pobres: Protagonistas do Evangelho

Tempo de leitura: 4 min
Os pobres e os simples foram grandes protagonistas do Evangelho e da fé cristã, desde o princípio.
P. Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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A atenção aos pobres precisa de estar sempre no centro da vida da Igreja, onde quer que ela viva. Não se trata apenas de um dever de caridade: sem eles, a Igreja deixa de reconhecer algo essencial de si mesma. Na exortação Amei-te, que continuamos a acompanhar, Leão XIV não usa meios-termos: deixando os pobres de fora, a Igreja já não seria ela mesma. Eles são parte da “carne” deste corpo que é a Igreja: «Enquanto Corpo de Cristo, a Igreja sente como sua própria “carne” a vida dos pobres, que são parte privilegiada do povo a caminho». (Amei-te, n.º 103)

Assim, os pobres não são vistos apenas como destinatários da ajuda que os membros da Igreja podem oferecer. Trata-se de uma dimensão constitutiva do Corpo de Cristo, presente e activa em cada momento e em cada lugar da nossa História.

Compreendemos melhor esta centralidade quando recordamos um traço constante da acção de Deus: Ele escolhe pessoas pobres e frágeis como colaboradores privilegiados para ir transformando o mundo e aproximá-lo do Reino.

Vem logo à mente o exemplo de Maria, a mãe de Jesus: a «humilde serva» (cf. Lc 1,48) que Deus escolhe para trazer ao mundo o seu Filho eterno. Humilde e pobre era também a pequena cidade em que ela vivia com José; e humilde permaneceu a família e o contexto em que Jesus cresceu.

A festa do Pentecostes, que celebramos este mês, confronta-nos de novo com esta preferência de Deus. Jesus envia o Espírito Santo a um grupo de apóstolos vindos de um ambiente simples do Norte da Galileia: pescadores, gente do povo. É a eles que confia o anúncio do Evangelho ao mundo. Daquele pequeno grupo amedrontado em Jerusalém (cf. Jo 20,19-26), parte a Boa Nova que hoje anima e ilumina o caminho de milhares de comunidades cristãs, em todos os continentes. Os pobres e os simples foram grandes protagonistas do Evangelho e da fé cristã, desde o princípio.

Leão XIV exprime um agradecimento particular a quem escolheu viver entre os pobres: «Por esta razão, dirijo um sincero agradecimento a todos aqueles que escolheram viver entre os pobres: àqueles que não só vão visitá-los de vez em quando, mas que vivem com eles e como eles. Esta é uma opção que deve encontrar lugar entre as formas mais elevadas da vida evangélica» (Amei-te, n.º 101).

O papa explica — a partir do que ele próprio viveu nos anos de missionário no Peru — que as condições de vida dos pobres e os desafios que enfrentam todos os dias ajudam a compreender o Evangelho e a fé cristã de um modo que muitos outros não conseguem (cf. Amei-te, n.º 100). Assim, tornam-se verdadeiros «sujeitos do Evangelho»: com a sua fé simples e o seu testemunho de vida, encarnam concretamente o que significa a vida cristã. A sua maneira de acreditar, de celebrar a fé e de praticar a caridade fraterna torna-se anúncio para todos, crentes e não crentes.

Que a celebração do Pentecostes possa abrir também os nossos olhos e ouvidos para aquilo que Cristo quer anunciar a todos nós, através dos pobres que recebem o Espírito de Deus e nos recordam o coração do Evangelho.

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Maio 2026 - nº 768
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