
O Papa Leão XIV, na sua carta de Outubro do ano passado, que continua a motivar estes apontamentos, Amei-te, diz uma coisa que nos pode surpreender: Deus ama os pobres com «amor preferencial». E insiste ainda dizendo, no parágrafo n.º 103, que a escolha dessa maneira de amar — preferencial — é garantia de que a Igreja continua a ser fiel ao Evangelho de Jesus em qualquer momento da História.
Ora, todos gostamos de pensar que Deus não tem «preferidos», que ama a todos com amor igual e não trata ninguém como se ele ou ela tivesse direito a algum privilégio. O próprio São Pedro, logo nos primeiros anos de vida das primeiras comunidades cristãs na Palestina, descobriu isso, para sua grande surpresa, quando foi convidado a visitar um certo Cornélio que morava com a sua família em Cesareia (cf. At 10,34). Ele pensava que Deus tivesse uma preferência particular pelos membros do povo hebreu: bastava considerar todo o Antigo Testamento, a história dos Patriarcas de antigamente, Abraão, Isaac, Jacob, os reis, como David e Salomão, os profetas como Isaías e Oseias, personagens que tinham inspirado a fé daquela gente ao longo de séculos, e sobretudo pensando em Jesus e sua família, todos eles membros desse povo. E mesmo assim, mal Simão Pedro começa a falar de Jesus ao romano Cornélio e à sua família, o Espírito Santo desceu sobre eles, como sobre os apóstolos no dia do Pentecostes! Pedro teve de reconhecer que, quando se trata da salvação em Cristo, Deus não tem preferência por ninguém, e não pôde recusar-lhes o baptismo, aceitando-os na comunidade cristã.
Como entender então que esse mesmo Deus que não tem preferidos e ama a todos por igual nos convida agora a um amor que dá preferência aos pobres? E, como diz o Papa Leão XIV, esse é mesmo o sinal de autenticidade que garante que continuamos fiéis ao Evangelho?
É aí mesmo, no Evangelho, que precisamos de procurar a resposta. Jesus apresenta-nos Deus seu Pai como aquele que «faz chover sobre justos e injustos» (Mt 5,45), um Deus imparcial que oferece as suas bênçãos a quem quer que esteja disposto a recebê-las, ao santo que as agradece com coração feliz, e ao pecador que precisa delas como força para endireitar a sua vida. Mas é o mesmo Pai do Céu que habita o seu coração que inspira a Jesus a parábola da «ovelha tresmalhada» a quem o pastor dá uma atenção preferencial, deixando as 99 no deserto para dedicar toda a sua energia a procurá-la pelos montes, até que a pode trazer aos ombros com grande alegria, de volta ao redil (cf. Lc 15,4-7). Lembremos que, com esta parábola, Jesus tenta explicar o que ele mesmo faz todos os dias: oferecer o amor e a ternura de Deus a todos, começando pelos mais necessitados.
Só Deus pode ter um coração suficientemente grande para amar a todos por igual, e ao mesmo tempo fazer experimentar a cada um de nós um amor que é único. E mesmo assim fica a advertência do Papa Leão: queremos saber se o nosso amor continua fiel ao Evangelho? É ver se damos sempre atenção prioritária aos pobres que mais precisam.
