Opinião
01 junho 2026

Preservar o humano na era digital

Tempo de leitura: 4 min
O pontífice coloca a pessoa humana no centro da sua reflexão e pede que se liberte a IA «das lógicas que a transformam em instrumento de domínio, exclusão ou morte».
Ir. Bernardino Frutuoso
Director
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No dia 25 de Maio, o Papa Leão XIV publicou a sua primeira encíclica, Magnifica humanitas (Magnífica humanidade), que aborda a inalienável dignidade humana na era da digitalização, da inteligência artificial (IA) e da robótica. Para expressar que a Doutrina Social da Igreja é dinâmica e se desenvolve em fidelidade ao Evangelho,  o texto foi assinado no dia 15 de Maio, 135.o aniversário da encíclica Rerum novarum, do Papa Leão XIII — que nos alvores da Revolução Industrial do século xix defendia «a busca de uma ordem social mais justa» e a primazia do trabalho humano face a qualquer lógica produtiva de exploração —, expressando, assim, que a Igreja caminha com a História da Humanidade e, da perspectiva cristã, quer «enfrentar, com lucidez e responsabilidade, os desafios do nosso tempo».

O título da encíclica expressa bem a preocupação da Igreja perante os novos desafios da tecnologia, especialmente da rápida evolução da IA generativa e a sua integração nos mais diversos âmbitos da vida quotidiana. O pontífice coloca a pessoa humana no centro da sua reflexão e pede que se liberte a IA «das lógicas que a transformam em instrumento de domínio, exclusão ou morte».

No documento, com cinco capítulos, Leão XIV menciona os benefícios da IA para a realização de distintas actividades e a tomada de decisões, sejam estas no âmbito empresarial, económico, educativo, social, etc. No entanto, alerta de uma maneira transversal que «as inovações tecnológicas — incluindo a inteligência artificial — não são neutras; podem aumentar a participação e a justiça, ou agravar as desigualdades, o controlo e a exclusão». Nesse sentido, convida-nos a questionar a lógica por detrás dos algoritmos e a visão de pessoa e de sociedade que está inscrita nos modelos que os orientam, considerando que «podem existir usos manifestamente anti-humanos, como a manipulação da informação ou a violação da privacidade, mas pode também haver uma ameaça menos evidente, quando os sistemas de IA, apresentando-se como neutros e objectivos, reflectem e reforçam estereótipos ou posições ideológicas daqueles que os projectaram e treinaram». Exorta, por isso, ao «desarmamento» das tecnologias para que se coloquem a serviço do bem comum e à construção do «futuro para a família humana».

Na encíclica — em cuja apresentação Leão XIV participou, um facto inédito — o papa denuncia ainda as novas formas de escravatura ligadas à economia digital — nomeadamente das crianças do Sul do mundo —, a crescente submissão das sociedades a uma «cultura do poder e «a lógica da competição armada, que hoje já não é apenas militar, mas económica e cognitiva».

A encíclica Magnífica humanidade é um texto profético e pertinente que exige uma leitura profunda. Convida-nos a uma reflexão ética nesta «era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização», de modo que «permaneçamos «profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo» e colaborando na construção de uma sociedade mais humana, justa e fraterna.

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Junho 2026 - nº 769
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