Opinião
01 julho 2026

Migração e justiça social

Tempo de leitura: 4 min
A defesa da dignidade e dos direitos dos migrantes esteve no centro das intervenções de Leão XIV durante a sua recente visita a Espanha.
Ir. Bernardino Frutuoso
Director
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De 9 a 16 de Agosto, celebramos em Portugal a Semana Nacional das Migrações, que visa sensibilizar a sociedade e a comunidade eclesial para a realidade e os desafios dos migrantes e refugiados. Uma reflexão ainda mais pertinente agora que entrou em vigor na União Europeia o Pacto sobre Migração e Asilo, que implica um reforço da segurança nas fronteiras, mais medidas dissuasoras e a aceleração das expulsões. 

A defesa da dignidade e dos direitos dos migrantes esteve no centro das intervenções de Leão XIV durante a sua recente visita a Espanha — 6 a 12 de Junho. No Parlamento, criticou a discriminação dos migrantes e instou os governos a procurar uma «resposta que olhe para as pessoas, afronte as causas que as obrigam a partir e vá além da mera gestão de fluxos». Neste âmbito, «nasce uma dupla exigência de justiça social: oferecer vias seguras e legais, um acolhimento respeitoso e possibilidades reais de integração; e promover, ao mesmo tempo, o direito a permanecer na própria terra» (cf. Magnifica Humanitas, n.º 81).

Nas Canárias, onde chegam provenientes da África milhares de pessoas a bordo de embarcações precárias, o papa reiterou que a Igreja está chamada a ser próxima e samaritana, a tocar as feridas da Humanidade, a construir pontes em vez de muros, a denunciar profeticamente as estruturas injustas e a reconhecer os migrantes como irmãos e irmãs portadores de dons e riquezas para a sociedade e para a comunidade de discípulos missionários. 

Leão XIV criticou, ainda, o cinismo de uma Europa que «não pode proclamar a dignidade humana» e normalizar o drama do Mediterrâneo e Atlântico transformados em «cemitérios sem lápides» de migrantes, apelando a um «exame de consciência» de políticos e sociedade civil. Todavia, o papa condenou as redes de tráfico humano que lucram com o desespero de milhares de pessoas. 

No arquipélago, o pontífice conheceu no terreno o labor das organizações civis e da Igreja em prol dos migrantes e insistiu no valor da integração, que deve realizar-se através da proximidade. «O acolhimento abre a porta; a integração ajuda a atravessar o limite. A assistência aplica um bálsamo na ferida e a integração reconstrói o futuro», referiu. Além disso, insistiu em fazer tudo o que for possível para evitar, após a chegada, «um naufrágio silencioso»: «Ficar sozinho numa cidade, sem língua, sem laços, sem trabalho, sem confiança e exposto àqueles que se aproveitam da vulnerabilidade». «Integrar – acrescentou – é impedir esse segundo naufrágio.» 

E no cais onde chegam os migrantes, pessoas com dignidade, recursos e sonhos, o papa advertiu: «Aqui o Evangelho tira-nos da posição confortável de espectadores e coloca-nos diante do nosso irmão ou irmã que chega», que pergunta a cada um «se reconhecemos Cristo naqueles que desembarcam marcados pelo medo, pela fome e pela violência, depois do deserto, da noite e do mar». E, em tom de prece, concluiu Leão XIV: «Deus, que “no ocaso da vida nos julgará sobre o amor” (São João da Cruz), nos conceda reconhecê-lo nos pobres e nos estrangeiros, e nos livre de olhar para a dor alheia como se não nos pertencesse.»

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Julho e Agosto 2026 - nº 770
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