Opinião
16 junho 2026

Um rosto, muitos rostos

Tempo de leitura: 3 min
Reconhecer Cristo no outro traduz-se em gestos concretos: acolher, escutar, servir, amar como irmãos.
P. Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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Rezar com Jesus é fácil; mais difícil é reconhecê-lo em quem encontramos — sobretudo nos pobres. Para quem acredita em Cristo e procura viver a fé, rezar a Deus pensando no rosto de Jesus é algo quase espontâneo: Ele é o rosto humano de Deus que nos acompanha.

Mas o Papa Leão XIV, no n.º 103 da exortação Amei-te, pede-nos um passo a mais: reconhecer o rosto de Cristo nas pessoas concretas com quem caminhamos — e, de forma ainda mais exigente, no rosto dos pobres e dos que passam necessidades no nosso mundo.

Ele lembra que esta forma de ver não nasce apenas de uma decisão pessoal. Não é uma regra que nos impomos, nem um exercício moral que se faz por força de vontade. Reconhecer o Senhor nos pobres é, antes de tudo, uma graça. Um dom que recebemos de Deus. O papa compara essa experiência a «entrar num rio de luz» que atravessa a vida da Igreja desde o começo: é a luz da fé, que nos faz perceber Deus presente e nos reúne como membros do Corpo vivo de Cristo.

Quando nos sabemos parte desse Corpo — com Cristo como cabeça — percebemos que a vida vem dele. Essa mesma luz abre os olhos e ajuda-nos a ver, nas pessoas ao nosso lado, irmãos e irmãs, membros do mesmo Corpo, ligados à mesma fonte.

E, por escolha do próprio Deus, os pobres e os necessitados ocupam um lugar especial entre os membros deste Corpo. O Papa Leão XIV escreve: «Enquanto Corpo de Cristo, a Igreja sente como sua própria “carne” a vida dos pobres, que são parte privilegiada do povo a caminho.»

Nos últimos dias, voltei a encontrar as palavras de Isaac da Estrela, um teólogo, filósofo e monge cisterciense do século xii, abade de um mosteiro perto de Poitiers (França). Como nunca foi canonizado, a tradição continua a chamar-lhe beato. Isaac ajuda a entender esse «rio de luz». Ele falava do «Cristo total»: Cristo só está completo quando a cabeça — o Ressuscitado — e os membros do seu corpo — nós — permanecem unidos. É dessa união, dizia ele, que nasce a luz para reconhecermos uns nos outros irmãos e irmãs do mesmo Corpo.

Na prática, reconhecer Cristo no outro traduz-se em gestos concretos: acolher, escutar, servir, amar como irmãos.

E, sabendo que Jesus deu a vida «por vós e por todos», como sempre dizemos na Eucaristia, cresce em nós o desejo de levar o seu Evangelho a quem ainda não o conhece, para que também essas pessoas entrem neste «rio de luz» que é a fé.

Há ainda um efeito menos notado: quando tentamos reconhecer Cristo nos outros, acabamos por conhecer melhor o próprio Jesus. Muitos missionários e missionárias experimentamos isso vezes sem conta: ao partilhar a fé com outros povos, descobrimos novas dimensões de Cristo ao vê-lo reflectido nas comunidades que vão nascendo, fruto do Evangelho. Nas novas comunidades cristãs que ajudamos a nascer, aprendemos também maneiras novas de sermos «rosto de Cristo» uns para os outros. 

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Junho 2026 - nº 769
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