
Andámos um longo caminho desde o ano em que Pio XI, em 1926 e com a encíclica Rerum Ecclesiae, estabeleceu a celebração do Dia Mundial das Missões até hoje. Ao dizer andámos, refiro-me a todos na Igreja: papas, bispos, sacerdotes, missionários, consagrados, leigos. Olhar para trás permite-nos refazer o caminho andado, pelo que se refere aos conceitos e às práticas da evangelização; um olhar retrospectivo requer muito mais do que o que permite este breve texto, em que sublinhamos a importância deste centenário e propor algumas chaves de leitura.
Pelo meio, no caminho destes cem anos, houve de tudo. Antes de mais, na sociedade: uma guerra mundial de consequências devastadoras; movimentos e guerras de libertação colonial; reconstrução e unificação da Europa; a globalização do comércio, dos capitais e das ideias; as redes sociais e a comunicação digital; a inteligência artificial. Depois, na Igreja: um concílio ecuménico (Vaticano II) e a renovação eclesial que se iniciou sobre todas as frentes, particularmente a da evangelização; uma série de papas e líderes eclesiais que marcaram estes cem anos e reinterpretaram o mandato missionário de Jesus. Um caminho feito por todos, institutos, movimentos, novas comunidades, à procura de maneiras adequadas para levar o Evangelho de Jesus a todos.
Foi, com efeito, à volta do anúncio do Evangelho que a missão se reconfigurou, procurando integrar outras dimensões que se foram descobrindo ao longo do caminho, na leitura dos sinais dos tempos e dos lugares: a transformação social e a libertação política, a promoção da justiça e da paz, a salvaguarda das culturas e tradições religiosas dos povos, a defesa da Natureza e da Criação, a promoção da fraternidade.
Desde o Vaticano II e o Ad Gentes, a missão passou dos institutos missionários — que desde a segunda metade do século xix, a abraçaram como própria — para a Igreja como tal que descobriu a sua natureza missionária, para as comunidades cristãs que se descobriram protagonistas da missão.
Por isso, em vários âmbitos, se está a acentuar a urgência de uma formação missionária continuada. Em Roma, Leão XIV e as Obras Missionárias Pontifícias com ele, insistem nesta tarefa dos directores nacionais e dos directores diocesanos, em relação aos leigos, aos sacerdotes e consagrados. Trata-se de uma acção ao serviço da comunhão das nossas Igrejas locais com a Sede Apostólica, que reavive a consciência da nossa responsabilidade missionária. Entre nós, esta urgência é ainda mais sentida, pelo facto de não existir, nas universidades ou seminários, nenhuma faculdade de missiologia e/ou Teologia querigmática.
Entre nós, são várias as iniciativas que procuram corresponder a esta urgência, promovendo a formação missionária dos cristãos. Lembramos as Jornadas Missionárias que, este ano, reflectem sobre os desafios da Unidade: Um em Cristo e Unidos na Missão. Este é o tema que o Papa Leão nos propõe para este centenário; o desafio de vivermos a vida e a missão cristãs ao ritmo da comunhão na diversidade de situações e de contextos.
