Opinião
03 junho 2026

Ressuscitar a aula teórica

Tempo de leitura: 3 min
Ouvir um professor numa aula teórica é tomar contacto com um estilo de pensar. É aqui que está a ressurreição da aula teórica.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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A educação é o direito humano que torna a mente livre. Se um povo ou nação pretende a subjugação, o primeiro inimigo a abater é a educação. Porém, com a evolução tecnológica é lícito questionar o que significa modernizar a educação. Há quem questione a morte da aula teórica, mas eu creio que a deveríamos ressuscitar.

Recentemente participei num grupo de discussão entre docentes e estudantes sobre «Métodos de Ensino e Aprendizagem Activa», onde muito do diálogo incidiu sobre os desafios da inteligência artificial (IA) para a educação. Será que veremos o nosso pensar ampliado, tal como um dia vimos a nossa capacidade de cálculo com a emergência dos computadores?

O risco existe. Se admitirmos que a IA pense por nós, poderemos perder essa faculdade. Aceitaremos tudo o que debita como verdade, incluindo a sua manipulação voluntária ou não. Por isso, talvez hoje, mais do que antes, o exame escrito pela mão de cada aluno seja a melhor e mais honesta forma de ele avaliar aquilo que aprendeu. Sim, na universidade, os exames não são avaliações de professores a alunos, mas avaliações que os alunos fazem a si mesmos, confirmada ou não, pelos professores. Porém, no que diz respeito à descoberta do conhecimento, será a aula teórica supérflua?

Um bom uso de uma IA pode ajudar muito um estudante a explorar conceitos ao seu ritmo. E, sejamos honestos, as ferramentas de IA alucinam cada vez menos. Por isso, alguns vêem e com razão a morte anunciada da aula teórica. Para que serve ir para uma sala ouvir um professor a falar para uma massa que possui ritmos de aprendizagem diferentes e, consequentemente, necessidades diferentes nos métodos que ajudam cada um a aprender? Serve para uma única coisa, insubstituível por qualquer sofisticada IA.

Ouvir um professor numa aula teórica é tomar contacto com um estilo de pensar. É aqui que está a ressurreição da aula teórica. Aulas diferentes com professores diferentes implicam um contacto do estudante com estilos diferentes de pensar. E, em muitos casos, uma mesma ferramenta usada na aprendizagem, como a linguagem matemática o faz em cursos de Engenharia, pode ser encarada de forma diferente por pessoas diferentes. E quanto maior for a diversidade de estilos de pensar com que um estudante contacta, mais oportunidade tem de definir o seu próprio estilo de pensar. Uma IA não tem um estilo de pensar, mas de manter um diálogo lógico connosco. Quando muito, o estilo de pensar que com ela interage — o nosso — torna-se o seu estilo de pensar.

Contudo, existem alguns estilos de pensar de professores que são francamente tediosos e desinteressantes, mas até esses possuem o seu valor. Pela vida fora serão muitas as situações em que estaremos diante de pessoas das quais aprendemos muito pouco. Também precisamos de aprender a lidar com essas situações e numa perspectiva apreendedora, alguém secante torna-se uma oportunidade para aprender a lidar com isso. Não há teoria que não esteja ligada à vida. E ressuscitar a aula teórica talvez seja o modo de manter vivo o pensar humano.

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Junho 2026 - nº 769
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