Opinião
03 maio 2026

Um desafio teológico inesperado

Tempo de leitura: 4 min
Será a Teologia um modo de compreender a realidade imersa em Deus que ajudará a mente e o coração de cada pessoa a confiar na Sua criatividade que se manifesta em nós através de tudo o que fazemos por amor?
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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A luz solar não só ilumina, aquece, como também fornece energia à civilização humana. Não é do domínio de ninguém e está tão disponível ao rico como ao pobre. O único factor entre a sua disponibilidade e a sua utilização é o acesso à tecnologia que permite esse processo. Esse acesso começa a ser tão valioso para as comunidades humanas, como o acesso à água potável.

A guerra absolutamente absurda, e sem fundamento, que se vive no Médio Oriente acabou por nos forçar a pensar na transição energética para as fontes que temos disponíveis, como a solar. Recentemente li que a tecnologia dos painéis solares está a evoluir a passos largos com sistemas plugin. Ou seja, comprar, ligar a uma ficha eléctrica e começar a usar. É claro que existem ainda receios quanto à segurança por causa de possíveis defeitos no sistema de fios eléctricos que vagueia pela casa, mas isso será uma preocupação que se resolve à semelhança do que acontece já para uma instalação de gás canalizado. Será que se abre um novo horizonte para finalmente deixarmos de depender do petróleo?

Antes de ir para Ciências, fiz o 10.º ano em Economia e realizei um trabalho sobre como resolver o problema do subdesenvolvimento. Não esqueço o comentário final da professora: «É uma boa intenção, Miguel, mas… para os países pobres deixarem de o ser, significa que os ricos deixam de o ser também.» O egoísmo humano sobrepunha-se a qualquer forma de querer o melhor para todos. Para mim significou, e significa ainda, que garantir uma qualidade de vida semelhante às comunidades humanas espalhadas pelo planeta é um desafio que está para lá do tecnológico, ou até do económico. Parece-me ser, inesperadamente, um desafio teológico.

Quando o ser humano se faz centro do ambiente que o rodeia, todos querem subir ao pódio. Mas no pódio não existe espaço para todos. Quando no Cristianismo surge a experiência de um Deus que se esvazia de si mesmo e faz-se carne, Ele, que está no pódio, desce dele. Não para que o ser humano, consciente-de-si, ocupe o lugar, mas para revelar que o lado dos vencedores está na possibilidade de amar e deixar-se amar. Para isso, é preciso ir ter com a gente, viver no meio das comunidades e renová-las a partir do seu interior. Quem tem muito, muito tem para dar. Quem acumula muito, vive aprisionado ao seu acumular.

Não são apenas as tecnologias que usamos que dependem do petróleo. São também as inúmeras famílias sustentadas por essa indústria que dão emprego a tanta gente. O que aconteceria a essas famílias se, de um momento para o outro, cortássemos radicalmente com o uso de tudo o que envolve petróleo?

Em cenários apocalípticos, vale a esperança d’Aquele que afirma: «Eu renovo todas as coisas» (Ap 21, 5). Por isso, será a Teologia um modo de compreender a realidade imersa em Deus que ajudará a mente e o coração de cada pessoa a confiar na Sua criatividade que se manifesta em nós através de tudo o que fazemos por amor?

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Maio 2026 - nº 768
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