Opinião
01 setembro 2026

O clamor dos menores migrantes

Tempo de leitura: 3 min
No dia 27 de Setembro, a Igreja Católica celebra a 112.ª Jornada Mundial do Migrante e do Refugiado — nesta edição da Além-Mar damos destaque ao fenómeno migratório nas páginas 9, 13 e 22-29.
Ir. Bernardino Frutuoso
Director
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Este ano, a mensagem de Leão XIV — com o tema Mesmo uma só destas crianças — centra-se na situação dramática dos menores, «os mais vulneráveis no seio dos fluxos migratórios mundiais». Essas crianças e esses adolescentes, longe de serem meros números ou estatísticas, «são rostos concretos, histórias únicas, que apelam à nossa consciência». Há aqueles que perderam pais, irmãos e amigos, que testemunharam violências indescritíveis ou foram separados das suas famílias. Outros enfrentam viagens em condições extremas e traumáticas ou são separados dos pais devido ao repatriamento. A esse cenário somam-se as mortes ao longo das rotas migratórias, o tráfico e a exploração, o recrutamento de menores em conflitos armados, a violência sexual e os casamentos forçados, pois «a sua dignidade é espezinhada de demasiadas formas».

O texto pontifício aponta as causas deste êxodo forçado e os seus responsáveis: «Todos os anos, milhões de crianças e adolescentes são obrigados a abandonar a sua terra devido a guerras, pobreza, violência, catástrofes ambientais e outras tragédias; e, infelizmente, o seu número continua a aumentar. As responsabilidades económicas, políticas e militares por este desastre são imensas.»

Leão XIV apela à dimensão espiritual perante esta crise e recorda que «o Evangelho convida-nos a não fazer cálculos: mesmo um só. Cada criança, cada ser humano possui uma dignidade infinita.
É imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26), é presença do Senhor. Perante cada menor migrante, somos chamados a realizar um acto de humanidade e de fé: na criança, com efeito, podemos acolher e encontrar o Senhor».

Para combater a invisibilidade, o papa faz um apelo quádruplo à responsabilidade: no âmbito pessoal, convida a reconhecer a criança «antes mesmo de a vermos como “migrante”»; na vida da Igreja, exige «transformar a hospitalidade de um conceito abstracto numa prática pastoral constante»; no diálogo inter-religioso, exorta as comunidades de fé a criarem espaços seguros que protejam os jovens; às instituições civis, pede que seja reafirmado o princípio do interesse superior do menor, medidas que favoreçam o reagrupamento familiar e acções capazes de evitar os traumas provocados pela separação.

Recordando o seu discurso perante o Parlamento espanhol, no passado mês de Junho, Leão XIV convoca a uma mudança radical nas políticas internacionais: «É preciso deslocar o eixo do debate da mera gestão dos fluxos migratórios para a protecção plena e imediata dos direitos humanos.»

A mensagem de Leão XIV deixa também espaço para a esperança, elogiando a «luz da solidariedade» daquelas pessoas, famílias, instituições civis e comunidades eclesiais que, «nas rotas e nas nossas cidades, se dedicam a curar as feridas invisíveis destas crianças», demonstrando que «o amor pode vencer a indiferença».

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EDIÇÃO
Setembro 2026 - nº 771
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