Opinião
02 setembro 2026

Saber aprender com a água

Tempo de leitura: 3 min
O autor britânico C. S. Lewis (1898-1963) pôs estas palavras na boca de Filóstrato em Uma Força Medonha, obra publicada em 1945: «Sabe tão bem como eu sei que o poder do Homem sobre a Natureza significa o poder de alguns homens sobre outros homens, com a Natureza como instrumento.»
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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Ano após ano repete-se a celebração do Tempo da Criação. Se pensarmos na Humanidade no tempo de C. S. Lewis, a consciência da necessidade de um relacionamento mais profundo com a Natureza não era tão evidente, mas era a suficiente para ele reconhecer que o poder sobre os outros era a intenção escondida por detrás do poder que se pretendia ter sobre a Natureza.

Há anos que os cientistas alertam as pessoas e os políticos dos perigos do aquecimento global, mas não chega. Há onze anos foi a vez do Papa Francisco com a Laudato Si’, mas não parece chegar. Agora estamos à beira de uma singularidade digital com o crescimento do uso e impacto da inteligência artificial (IA), com a promessa do poder resolver os nossos problemas, incluindo os ambientais. Será que é desta? Intuo que não.

Não podemos ficar à espera de compreender totalmente os cientistas, aguardar que os políticos tomem as decisões acertadas atempadamente, ou confiar no aparente milagre da IA. Um relacionamento mais profundo com a Natureza depende apenas de nós próprios e das experiências que fazemos juntos com as nossas comunidades. Uma das experiências mais esquecidas seria aprender com a Natureza. Este ano, o tema proposto para aprofundar no Tempo da Criação desenrola-se em torno da água que flui.
O que podemos aprender com a água que nos possa ajudar a um relacionamento mais profundo com a Natureza?

O fluir da água ensina-nos que essa se adapta, atomiza-se em pequenas gotas sem se quebrar, muda o seu estado quando mudam as condições e até pode segurar algo quando se faz película entre duas superfícies que não se tocam. Se a Humanidade compreendesse melhor o que significa entropia, uma realidade do mundo que expressa a tendência para a liberdade na diversidade sem retorno, saberia que todos os nossos actos são consequentes e irreversíveis.

Como a água, a Humanidade terá de se adaptar a um mundo novo onde os fenómenos climáticos extremos são a nova normalidade. Como a água, seremos uma diversidade de comunidades para nos mantermos coesos, evitando as forças culturais que nos atraem a uma uniformidade no estilo de ser. Como a água, não receemos a necessidade de transformar o nosso estilo de vida como resposta aos sinais dos tempos. Como a água que se faz película quase invisível de tão fina que é, a nossa presença discreta que ama pode unir aqueles que divididos nem se querem tocar.

Na génese do mundo, o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Não tanto para as parar, mas como brisa suave, agitar e mover na direcção que Ele quiser. Uma vida artificializada é desumanizada porque limita a nossa liberdade às limitações dos algoritmos. Que o relacionamento com a água exterior e a brisa do Espírito que sopra no interior possam conduzir-nos a uma vida plenamente humana.

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EDIÇÃO
Setembro 2026 - nº 771
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