
Volta a falar-se em perigosa «invasão» de multidões que destroem a identidade cultural europeia. Como alternativa à imigração, há quem aponte (embora quase sempre daí não retire as necessárias consequências) para a necessidade do desenvolvimento dos países de origem.
Neste contexto, convém recordar o magistério da Igreja sobre esta temática, exposto na encíclica do Papa Francisco Fratelli tutti, de forma aprofundada e em consonância com outras mensagens do papa argentino e também de São João Paulo II, Bento XVI e Leão XIV.
Nessas mensagens nunca se pôs em causa a necessidade de regular as migrações e de atender à real capacidade de integração dos imigrantes nas sociedades de acolhimento. O exemplo do ocorrido em Ceuta não é certamente de seguir. Sempre nessas mensagens se têm propugnado vias legais e seguras para a imigração. Mas também se tem sublinhado o bem que desta pode resultar, para os países de origem e para os países de acolhimento.
Essa encíclica encara as migrações numa perspectiva de justiça social, à luz do princípio do destino universal dos bens. Os bens de um país não devem ser negados a quem provém de outro lugar (n.o 124). Com as migrações, todos podem ganhar, porque todos perdem quando em qualquer lugar há pessoas e povos que não desenvolvem todo o seu potencial e toda a sua beleza por causa da pobreza (n.o 137). Cada nação é co-responsável pelo desenvolvimento de todas as pessoas, o que pode traduzir-se de dois modos, que não se excluem mutuamente: no acolhimento de imigrantes e no contributo para o desenvolvimento dos países de origem destes (n.o 125). É verdade que o ideal seria que a emigração não fosse necessária, mas enquanto não houver sérios progressos no sentido do desenvolvimento dos países pobres, há que reconhecer o direito de cada pessoa a encontrar um lugar onde não só possa satisfazer necessidades básicas, mas também realizar-se plenamente como pessoa (n.o 129).
Salienta também essa encíclica social como a abertura a outras culturas é enriquecedora para as pessoas e os povos: «Uma sã abertura não ameaça a identidade, porque ao enriquecer-se com elementos doutros lugares, uma cultura viva não faz uma cópia nem mera repetição, mas integra as novidades, segundo modalidades próprias», o que provoca «o nascimento de uma nova síntese, que, em última análise, beneficia a todos» (n.o 148). Destaca, igualmente, que «toda a cultura saudável é por natureza aberta e acolhedora, não estática» (n.o 146).
A experiência histórica de Portugal ilustra bem estas ideias da encíclica Fratelli tutti: como a emigração contribuiu para o desenvolvimento do país e dos Portugueses e como a nossa cultura se enriqueceu, ao longo da História, com os contactos com outras culturas.
