
Estatísticas oficiais indicam que na África do Sul há cerca de 2,5 milhões de imigrantes. Contudo, muitos são ilegais e outros indocumentados — pediram a renovação dos documentos de residência, mas a máquina burocrática não dá resposta atempada— e, por isso, o número real pode aproximar-se dos cinco ou seis milhões. Vêm sobretudo dos países vizinhos (Moçambique, Zimbabué e Maláui), mas também de geografias mais distantes como a República Democrática do Congo.
Em 1994, o ANC (Congresso Nacional Africano), sob a liderança de Nelson Mandela, assumiu o poder e prometeu uma nação próspera. Mais de três décadas depois — ainda com o ANC ao leme — má gestão económica, corrupção e a captura do Estado colocou a África do Sul numa posição muito complexa, agravando a economia e o desemprego (nos 32 por cento). Os problemas de desigualdade, pobreza e colapso dos serviços públicos persistem.
Para o padre Efrem Tresoldi, director da publicação comboniana Worldwide, publicada em Joanesburgo, «a raiva de muitos sul-africanos, jovens e não tão jovens, que não têm trabalho e nem sequer vislumbram no futuro a possibilidade de conseguir um emprego [gera] sentimentos de profunda frustração que os movimentos xenófobos souberam aproveitar e redireccionar contra os imigrantes, transformados em bode expiatório da crise social e económica do país». Ele explica que por trás da revolta do March and March — o movimento que exige a expulsão de todos os imigrantes ilegais — há interesses partidários, como o uMkhonto we Sizwe (MK Party) do ex-presidente Jacob Zuma, que esperam ampliar a base eleitoral nas eleições municipais de 4 de Novembro através da carta anti-imigração.
Manifestações violentas contra estrangeiros, organizadas pelos movimentos March and March e Operação Dudula, e alimentadas pelo discurso do ódio, lançaram o medo entre a comunidade negra estrangeira, especialmente nos bairros urbanos ao verem os seus negócios saqueados e destruídos e a sua integridade física em risco.
Dom Dabula Anthony Mpako, arcebispo católico de Pretória, nega que os Sul-Africanos sejam racistas. «A palavra “xenofobia” não capta totalmente o que está a acontecer», disse à ACIAfrica. «Isso cria a impressão de que os Sul-Africanos em todos os lugares simplesmente odeiam estrangeiros, como se os estivessem a caçar por todo o país.» Pedindo soluções abrangentes em vez de reduzir a questão a uma única narrativa que ignora a sua complexidade, o arcebispo acrescenta que a Igreja condena «a violência contra migrantes, sejam eles indocumentados ou em situação irregular. [...] A violência não é aceitável.»
Entretanto, o êxodo dos estrangeiros continua. Pelo menos, 15 mil imigrantes já voltaram a casa.
