Opinião
11 fevereiro 2022

Estar ao lado de quem sofre num caminho de amor

Tempo de leitura: 4 min
O serviço prestado a quem sofre [...] há-de ser sempre um «estar ao lado», que evidencie a relação humana interpessoal como parte não secundária do cuidar.
P. José Manuel Pereira de Almeida
Coordenador Nacional da Pastoral da Saúde
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Foi há trinta anos que S. João Paulo II instituiu o Dia Mundial do Doente como oportunidade para melhorar a atitude de escuta, a capacidade de reflexão e o compromisso pessoal perante o mistério da doença e do sofrimento (cf. João Paulo II, Mensagem para o I Dia Mundial do Doente, 21.10.1992).

A exortação aos discípulos que Lucas põe na boca de Jesus (Lc 6,36) faz de nós destinatários e protagonistas: tendo recebido a misericórdia divina, somos convidados a uma atitude de misericórdia para com os nossos irmãos. Assim, criados à imagem de Deus, nos tornaremos cada vez mais semelhantes a Ele (Gn 1,26-27). Cada um de nós pode cuidar do outro porque, primeiro, o Outro cuidou de nós (cf. 1 Jo 4,10.19). Deus é misericordioso connosco e nós podemos sê-lo para com os nossos irmãos.

O próximo (aquele de quem nos aproximamos pela única razão de que precisa de ajuda) – o que sofre, o que está doente, o que está à beira do caminho – é a presença de Jesus. Ele fez-se próximo da Humanidade e, deste modo, faz-se próximo de cada um de nós na nossa história concreta.

Perante esta exortação – «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» – é fácil que surja em nós um sentimento de inadequação como o Papa Francisco explicita: «Será verdadeiramente possível amar como Deus ama e sermos misericordiosos como Ele é?» (Francisco, Audiência Geral “Misericordiosos como o Pai”, 21.9.2016).

O serviço prestado a quem sofre não pode ser vivido de maneira anónima e despersonalizante. Há-de ser sempre um «estar ao lado» que evidencie a relação humana interpessoal como parte não secundária do cuidar. O Papa Francisco, falando da atenção para com os doentes, recorda-nos que «Jesus se fez próximo de cada um deles e que os curou com a sua presença e a força do seu poder. Visitar e assistir as pessoas doentes não pode faltar ao elenco das obras de misericórdia» (Francisco, Audiência Geral “Visitar os doentes e os presos”, 9.11.2016). Claro que a atitude de estar ao lado ganha uma relevância ainda mais significativa quando se fala de cuidados paliativos: a proximidade da compaixão possibilita a quem vive os momentos de maior vulnerabilidade que não se sinta só. «Perante o carácter inelutável da doença, sobretudo se é crónica e degenerativa, vindo a faltar a fé, o medo do sofrimento e da morte, e o desconforto que disso deriva, constituem hoje as causas principais da tentativa de controlar e gerir a chegada da morte, até antecipando-a, com o pedido de eutanásia ou de suicídio assistido» (Congregação para a Doutrina da Fé, Samaritanus bonus, I, 22.9.2020). A nossa proximidade não pode ser vivida em episódios de assistência (ou de assistência episódica), mas deve desenvolver-se num «caminho de amor» que fará crescer as nossas relações fraternas.

A memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes, intimamente ligada ao Dia Mundial do Doente, e o Santuário, que acolhe tantos peregrinos doentes com as suas famílias e comunidades, mostram-nos visivelmente a clara relação entre experiência da Graça e da caridade fraterna. 

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