Reportagens
19 maio 2020

A pandemia que ameaça a paz

Tempo de leitura: 43 min
A esperança no «acordo histórico» entre os Estados Unidos e os talibãs, que promete a retirada das tropas estrangeiras e recomenda uma partilha de poder entre líderes rivais, está a ser abalada por um novo e mais insidioso inimigo: a covid-19.
Margarida Santos Lopes
Jornalista
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Said Sabir Ibrahimi, que nasceu e cresceu em Cabul, olha para o acordo Estados Unidos-talibãs e exalta-o como «o primeiro grande passo no processo de paz afegão». Mas, depois, vê a covid-19 a propagar-se num país «com um dos sistemas de saúde menos funcionais da região», e avisa: «A pandemia poderá ser mais desastrosa do que a insurreição.»

Assinado em Doha, capital do Qatar, em 29 de Fevereiro, pelo emissário dos EUA, Zalmay Khalilzad, e pelo vice-líder dos talibãs, Mullah Abdul Ghani Baradar, o Acordo para Levar a Paz ao Afeganistão pretende ser o princípio do fim da «mais longa guerra da América». Um conflito iniciado em 7 de Outubro de 2011 como represália pelos ataques terroristas da Al-Qaeda em 11 de Setembro, e que, em quase duas décadas, causou dezenas de milhares de mortos.

O pacto histórico com os talibãs foi testemunhado por ministros e diplomatas de cerca de trinta países. Não esteve presente qualquer membro do Governo afegão, cuja legitimidade os talibãs não reconhecem. Por isso, no mesmo dia, em Cabul, foi assinada uma Declaração Conjunta entre a República Islâmica do Afeganistão e os Estados Unidos para Levar a Paz ao Afeganistão – um acordo para garantir que só há um governo, o reconhecido pelas Nações Unidas e não o Emirado Islâmico do Afeganistão, como os talibãs se designam.

Quais foram as concessões dos Americanos aos talibãs? Uma redução no número de militares estrangeiros, dos actuais 13 000 para 8600 num prazo de 135 dias, e uma retirada total até Abril de 2021; o fim das sanções aos talibãs ainda este ano
– as da ONU até 29 de Maio e as dos EUA até 27 de Agosto; convencer o Governo afegão a uma troca de prisioneiros – 5000 talibãs por 1000 «da outra parte»; a promessa de «não violar a soberania do Afeganistão com ameaça de força, uso da força ou ingerência nos assuntos internos afegãos».

Em contrapartida, os talibãs comprometem-se em travar ameaças à segurança dos EUA e seus aliados, por parte de grupos como a Al-Qaeda, que não poderão usar o território afegão como santuário. Em 2001, os EUA invadiram o Afeganistão e derrubaram o regime dos talibãs, porque estes tinham oferecido refúgio à organização de Osama bin Laden e recusado extraditá-lo. Os principais termos do acordo de Doha prevêem ainda negociações intra-afegãs para um consenso político. Muitos analistas olham, todavia, para as cedências aos talibãs como uma capitulação, apesar das garantias de que os EUA continuarão a apoiar as forças de segurança e outras instituições afegãs, porque lhes interessa a estabilidade regional.

Retirada sem humilhação

Said Ibrahimi, investigador ligado ao Projecto Regional Afeganistão-Paquistão do Centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova Iorque, confia à Além-Mar, por correio electrónico, que «a paz pode ser garantida se o Governo [afegão], as várias facções políticas e os talibãs aceitarem um compromisso político, apoiado por actores regionais». Mais pessimista, Marvin G. Weinbaum, director para o Afeganistão e Paquistão no Middle East Institute em Washington, diz-nos que o acordo com os talibãs «tem pouco que ver com a paz e é, sobretudo, uma cobertura política para os EUA saírem em segurança e sem humilhação».

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Ashraf Ghani (dir.), presidente afegão, cumprimenta Jens Stoltenberg, secretário-geral da NATO, durante a conferência de imprensa em que anunciaram o acordo de paz assinado entre os EUA e os talibãs, realizada no palácio presidencial em Cabul, no passado dia 29 de Fevereiro (Foto Lusa)

«Decidida a proceder a uma retirada, a Administração Trump aceitou um acordo com falhas graves e a continuação da violência», lamenta Weinbaum, que foi analista no Departamento de Estado americano e hoje é professor emérito de Ciência Política na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. «A retirada das forças estrangeiras e, em particular, de poder aéreo, conduzirá à dissolução das forças de segurança afegãs num curto espaço de tempo.»

«Mais do que uma consolidação do poder dos talibãs, como aconteceu nos anos 1990, temos agora os ingredientes para um caótico conflito civil», realça Weinbaum. «A partilha de poder é impossível, porque os talibãs só estão interessados em dominar e em restaurar o seu emirado. Nunca disseram que aceitariam outra coisa. E mesmo que a sua ideia de partilha de poder seja a de um governo mais inclusivo, vão querer ditar as condições para a sua formação: nada que assente, com toda a certeza, na soberania popular, no pluralismo e nas instituições que lhes são associadas.»

Quanto às conversações intra-afegãs, «por muito tempo que se arrastem nunca resultarão num bom acordo», afirma o céptico Weinbaum. «Aos talibãs só interessa a legitimidade que [o diálogo] lhes conferirá, enquanto prosseguem a sua campanha militar.»

Entre as principais críticas que têm sido feitas ao emissário Khalilzad estão as de não ter exigido aos talibãs o corte de relações com a Al-Qaeda (são apenas intimados a «não cooperarem»). A Al-Qaeda celebrou o acordo EUA-talibãs como uma derrota dos Americanos, «mas isso era expectável», admite Said Ibrahimi. «Não é de esperar uma ruptura dos laços bilaterais, porque a liderança da Al-Qaeda jurou lealdade aos dirigentes talibãs e há uma grande camaradagem entre os dois grupos desde há quase três décadas».

Outra crítica que é feita aos EUA é a de não ter deixado explícito que, continuando os actos de violência, Washington continuará a intervir para proteger a vulnerável população afegã e não apenas as suas tropas e as dos seus aliados. Por outro lado, ao incluir no Acordo de Doha (mas não na Declaração de Cabul) uma cláusula sobre a libertação de 5000 prisioneiros talibãs, alguns deles líderes do movimento, o mediador americano também retirou ao Governo afegão «o seu principal trunfo» para obrigar os insurrectos a sentar-se à mesa das negociações sem reivindicações maximalistas.

«Os talibãs não têm qualquer incentivo para abraçar um acordo que não lhes exige concessões, e a razão é esta: eles acreditam que estão a vencer», escreveu, no diário The Washington Post, Douglas London, ex-oficial da CIA. «Os talibãs têm vindo a retirar ao Governo o controlo das zonas rurais [onde vivem 71,5% dos 31,6 milhões de habitantes] e, com isso, apoderam-se das estradas necessárias ao reabastecimento das áreas urbanas. E, embora as autoridades em Cabul clamem que têm o apoio da maioria da população – sobretudo nas grandes cidades –, os talibãs continuam a expandir o território sob o seu domínio. Porque hão-de aceitar o que possa travar a sua inevitável marcha para o poder? O tempo joga a seu favor.»

Risco de guerra civil

Os antigos senhores de Cabul também se estão a aproveitar da rivalidade entre Ashraf Ghani e Abdullah Abdullah, ambos reivindicando vitória nas eleições presidenciais de Fevereiro último. Já em 2014, os EUA tiveram de intervir para que os dois aceitassem partilhar o poder: Ghani tornou-se presidente e Abdullah o chefe do Executivo. Desta vez, nenhum deles quer recuar, apesar de Washington já ter reduzido em mil milhões de dólares a sua ajuda para os forçar a um entendimento.

«Abdullah alega que as eleições foram mal organizadas e falsificadas», explica o investigador Said Ibrahimi. «Ghani nem sequer desmente que houve irregularidades. Abdullah quer entrar no governo em pé de igualdade e com poderes executivos. Ghani não quer um governo com dois chefes. O problema mais complicado é a estrutura do Governo – um sistema altamente centralizado em que o presidente detém demasiados poderes. Uma solução poderá ser um novo governo de unidade nacional.»

«A crise política entre Abdullah e Ghani é tão perigosa como a ameaça que os talibãs representam», alerta Ibrahimi. «Se não houver acordo para a criação de um “governo inclusivo”, não poderemos excluir a possibilidade de uma guerra civil. Se o impasse se arrastar, os representantes de Cabul ficarão numa posição debilitada nas negociações com os talibãs.»

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Militares afegãos participam numa operação contra os talibãs em Helmand, no passado mês de Fevereiro (Foto Lusa)

Uma sondagem da Asia Foundation, citada por Ibrahimi no site da cadeia de TV afegã TOLOnews, revela que 93,1% dos afegãos temem o regresso dos talibãs. Nos anos 1990, a economia entrou em colapso e «as rações fornecidas pela ONU eram a única fonte alimentar de grande parte da população». Os residentes da capital «tinham de ir a um posto de correios para fazer uma chamada internacional». A polícia «da virtude contra o vício» espancava mulheres em público, acusando-as de imodéstia se não usassem a burca. Os homens eram presos se «aparassem as longas barbas». Aos ladrões eram cortadas as mãos. Os adúlteros eram apedrejados e os condenados executados em campos de futebol. Estas regras «continuam a ser praticadas nas áreas subjugadas pelos talibãs», atenta Ibrahimi.

«O sistema pós-2001, apesar dos seus defeitos, permitiu muitos progressos», adianta o investigador afegão. «Nove milhões de crianças frequentam a escola, 35% das quais são meninas. O Afeganistão tem a imprensa mais livre da região, com dezenas de rádios e televisões, jornais e revistas privados. Vinte milhões de pessoas têm telemóveis. Há no país uma dúzia de universidades particulares. Os afegãos também se têm destacado em várias áreas, como a cultura, o desporto e as artes marciais – em que competem atletas femininas. Tudo isto significa não apenas uma mudança temporária, mas uma profunda alteração em termos sociopolíticos e de mentalidade.»

O que correu mal e bem?

Sob a teocracia dos talibãs, refere Ibrahimi, nunca teria sido possível a eleição de um presidente ou uma transferência pacífica de poderes. «Não quer isto dizer que o regime pós-talibã seja perfeito. Das quatro eleições presidenciais, três foram manchadas por fraudes maciças. O Afeganistão continua a ser um dos dez países mais corruptos do mundo [em grande medida, reconhecem responsáveis americanos ouvidos pelo Washington Post, porque “os milhões de dólares esbanjados diariamente” pelos EUA para a reconstrução “fomentaram uma cleptocracia entre as elites”]. A economia baseia-se na maior produção global de ópio [82%, segundo a ONU, apesar dos 9000 milhões de dólares gastos, desde 2001, para convencer, em vão, os agricultores a destruir as suas safras – o narcotráfico e a extorsão são as maiores fontes de rendimento dos talibãs].»

O estudo da Asia Foundation indica que 66,1% dos afegãos aprovam a quase-democracia instaurada após a invasão americana. Por exemplo, 86% apoiam a educação das mulheres e 76% são favoráveis a que trabalhem fora de casa. Como entender, então, que 89% aceitem negociações com o grupo de fanáticos que tenciona restaurar um «emirado» tirânico?

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Forças armadas afegãs desinfectam áreas públicas em Helmand, Afeganistão, por causa da covid-19 (Foto Lusa)

«Sim, as pessoas estão receosas, sobretudo as mulheres, as minorias e os que vivem nas grandes cidades, porque preferem uma democracia», afirma Ibrahimi à Além-Mar. «O regime dos talibãs era pior do que as ditaduras actuais. Os cidadãos também estão preocupados com as consequências económicas de um regresso dos talibãs. Se estes tentarem reconquistar o poder pela força, é muito provável que a comunidade internacional se retire e corte a ajuda ao desenvolvimento. Em todo o caso, a maioria dos afegãos apoia conversações com os talibãs porque anseia pelo fim do sofrimento. E porque eles representam uma parte da sociedade, ainda muito conservadora. Embora a sua principal base seja o Paquistão [o grande patrono], nem todos os talibãs são estrangeiros. O grupo também conta com apoio no Afeganistão.»

O ressurgimento dos talibãs depois de, em dezanove anos, os EUA terem investido mais de dois biliões de dólares para estabilizar o Afeganistão obriga à pergunta: o que correu mal e o que correu bem? Responde-nos o académico Marvin Weinbaum: «O que correu bem foi figuras poderosas terem sido capazes de [em 2002], sob pressão de potências externas, aceitar [numa conferência em Bona] um projecto de governo, na altura com Hamid Karzai como presidente interino, e uma constituição. Também foi uma vantagem óbvia contar com apoio popular e realizar eleições presidenciais em 2004, sem controvérsia. Nesses primeiros anos, tudo parecia fluir bem, porque os Afegãos aceitaram não só Karzai, mas também a presença de forças internacionais.»

«Muitos [incluindo responsáveis militares americanos] acreditam que o erro fatal foi a ausência dos talibãs em Bona», diz Weinbaum. Alguns dos insurrectos quiseram render-se e fazer parte das conversações na Alemanha, mas uma ufana Administração Bush preferiu classificá-los de terroristas e emitir mandados de captura. Ironia do destino: alguns dos que foram encarcerados em Guantánamo fazem agora parte da equipa que negoceia com Khalilzad.

Diferentes estratégias

Marvin Weinbaum acha que teria sido impossível um acordo tão amplo em Bona se os talibãs lá estivessem. «Os representantes da Aliança do Norte [que os derrubaram em Novembro de 2001] jamais se sentariam à mesa com aqueles contra os quais combateram durante sete anos e que consideravam uma força derrotada», justifica.

Para o politólogo que é autor ou coordenador de seis livros e mais de 100 artigos científicos, o maior erro «foi os EUA terem mudado, quase imediatamente, a sua atenção para o Iraque [de Saddam Hussein, falsamente acusado de ter “armas de destruição maciça”], acreditando que já não havia ameaças no Afeganistão».

«Outra coisa que correu mal foi recusa dos EUA, desde o início, em permitir que tropas internacionais se envolvessem na segurança do país», adianta o académico americano. «Isso permitiu o reaparecimento de homens fortes regionais. Depois, quando a insurreição parecia ganhar ímpeto em 2005-2006, não se fizeram as mudanças necessárias na estratégia de contra-insurreição, apesar de se ter aumentado o número de soldados e criado um comando mais unificado sob a liderança da NATO.»

Um responsável governamental americano desabafou ao Washington Post: «Havia tantas prioridades e aspirações, que deixou de haver qualquer estratégia.» Uns queriam transformar a cultura afegã, para dar mais direitos às mulheres; outros apostavam na reconstrução e na democracia; e outros ainda queriam alterar o equilíbrio regional de forças entre Paquistão, Índia, Irão e Rússia.

Também nunca terá havido consenso sobre quem era o inimigo: «A Al-Qaeda, que planeou e cometeu os ataques de 11 de Setembro, ou os talibãs, que apenas ofereceram um santuário a Bin Laden? O Paquistão, patrono dos talibãs, é aliado ou adversário? E como classificar o Daesh e outros grupos jiadistas, para não falar dos senhores da guerra financiados pela CIA?» A Administração americana «nunca encontrou uma resposta».

O inimigo coronavírus

Agora, o país onde quase ¼ da população (9,4 milhões) necessita de ajuda humanitária tem pela frente um inimigo mais implacável: a pandemia de covid-19. Em 25 de Março, o ministro da Saúde, Ferozuddin Feroz, estimava que 80% dos afegãos, ou seja, 25 milhões, poderiam contrair a nova doença. A província com mais casos de infectados é a de Herat, fronteiriça com o Irão, de onde regressam milhares de migrantes e refugiados. Mas a doença está a disseminar-se, afirma Said Ibrahimi, que não perde a esperança de ver os talibãs declarar tréguas, pelo menos nas áreas sob seu domínio.

O Afeganistão, onde incessantes combates e desastres naturais contribuíram para a prevalência de doenças como o sarampo e a poliomielite, «não tem capacidade para enfrentar sozinho este vírus», enfatiza Ibrahimi. «Mesmo em condições normais, muitos afegãos deslocam-se ao Paquistão, ao Irão, à Turquia ou à Índia para tratamentos médicos. O Governo atribuiu fundos a hospitais e apelou ao confinamento social, mas 50% das pessoas são pobres e têm de sair de casa para ganhar a vida. É preciso maior apoio da comunidade internacional e da elite rica afegã, para que haja mais acesso a testes, ventiladores, máscaras e equipamento de protecção individual, mas também alimentos. Temos de entender que a covid-19 e o terrorismo são fenómenos transnacionais e precisam da atenção internacional.»

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Voluntários distribuem sabão e máscaras protectoras em Herat, Afeganistão (Foto Lusa)

Marvin Weinbaum está tão pessimista como os que prevêem um impacto tão devastador como o que teve no Afeganistão comunista o colapso da URSS em 1991: «O coronavírus vai acelerar a partida das forças estrangeiras, se as condições de saúde se agravarem muito. Assim que os EUA se retirarem, haverá um vazio de poder que muitos países tentarão ocupar. É certo que os vizinhos preferem estabilidade e não têm interesse numa desintegração do Afeganistão. Mas se houver uma caótica guerra civil, o Paquistão, o Irão, a Rússia, mas também a Índia e a Arábia Saudita, serão arrastados para um conflito por procuração. Quanto à Al-Qaeda e ao Daesh [a sua “filial” afegã chama-se Estado Islâmico na Província de Khorassan], vão aproveitar-se para instalarem novas bases operacionais.»

A esperança de Ibrahimi e Weinbaum está numa cooperação global. Ambos acreditam que, embora o lema da Administração Trump seja «A América primeiro», esta tem-se mostrado disponível para colaborar com a ONU e actores regionais com vista a uma solução política. Resta saber se os talibãs estarão interessados numa mediação internacional que, certamente, não se inclinará para um regresso às trevas.

 

O preço da guerra

157 mil – número de pessoas mortas desde a invasão americana do Afeganistão em 2001. Deste total, 43 074 são civis afegãos (mais de dez mil dos quais só em 2019); 64 124 soldados afegãos; 42 100 insurrectos; 3814 mercenários ocidentais; 2400 soldados americanos; 1145 militares da NATO e de outros países da coligação liderada pelos EUA; 424 trabalhadores de agências humanitárias; 67 jornalistas e outros ligados a meios de comunicação social. 

1,5 biliões de dólares foi o total gasto pelos EUA no Afeganistão desde a invasão em 2001; 10 mil milhões em operações para travar o cultivo de ópio (fonte de empregos, mas também a base do narcotráfico que enriquece os talibãs) – 80% da produção global; 87 milhões para treinar as forças de segurança afegãs; 24 mil milhões para desenvolvimento económico; 30 mil milhões para outros programas de reconstrução; 600 mil milhões para pagar juros de empréstimos contraídos para financiar a guerra. 

2,7 milhões – número de refugiados afegãos registados em todo o mundo – 90% dos quais a viver no Irão e no Paquistão – o segundo maior grupo depois dos sírios. O número de deslocados ultrapassa os 2,7 milhões. 

1,4 biliões de dólares é a estimativa do que os EUA irão gastar até 2059 com os veteranos das guerras que travaram desde 2001. Mais de 350 mil milhões destinam-se a despesas médicas com os soldados que serviram no Afeganistão e Iraque. 

Fontes: Pentágono; Costs of War Project, da Brown University; Missão de Assistência da ONU no Afeganistão; Comité para a Protecção dos Jornalistas; Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados; The New York Times, The Washington Post.

 

Cronologia: História de uma nação indomável

Muitos descrevem o Afeganistão como um «cemitério de impérios». E foram muitos os invasores derrotados: Maurias, Guptas, Macedónios, Sassânidas, Kushans, Abássidas, Ghaznavids, Mongóis, Timuridas, Mogóis, Safávidas, Usbeques Shaybani, Britânicos, Sikhs, Soviéticos. Não tem sido fácil combater, conquistar e governar este lugar de montanhas e desertos inóspitos, invernos rigorosos e guerreiros orgulhosos. Seguem-se datas de glória e infâmia. 

1721 – Mirwais Khan (1673-1715) líder da confederação tribal Ghilzai, conquista Kandahar aos persas Safávidas.

1747 – Ahmad Shah Abdali, um kandahari do clã Saddozai e da tribo Popalzai, assume o título de Padshah-i Durr-i Durran – “Rei da pérola das pérolas” – o primeiro monarca afegão. Os Abdalis mudam o nome para “Durrani”, e Ahmad Shah Durrani (1722-1772) cria um Estado com capital em Kandahar.

1839 – I Guerra Anglo-Afegã, após uma invasão de forças britânicas.

1878 – Início da II Guerra Anglo-Afegã, depois de o emir Sher Ali Khan (1825-1879) ter reforçado os laços com a Rússia.

1879 – O rei Mohammad Yakub Khan (1849-1923) assina o Tratado de Gandamak, oferecendo aos Britânicos o controlo da política externa afegã, mas uma revolta popular força-o a abdicar.

1880-1901 – Abdul Rahman Khan (1844-1901) ascende ao trono e unifica o país, transformando-o de uma monarquia tribal numa monarquia absoluta dinástica. Em 1901, sucede-lhe o filho Habibullah Khan, que introduz várias reformas, designadamente a criação das primeiras escolas (só para rapazes).

1919 – Talvez por se manter neutral durante a I Guerra Mundial, Habibullah é assassinado, em 20 de Fevereiro. Sucede-lhe Amanullah Khan (1892-1960), o filho mais novo. Em 6 de Maio, começa a III Guerra Anglo-Afegã, quando o Emirado do Afeganistão invade a Índia Britânica. O conflito termina em 8 de Agosto com a assinatura do Tratado de Rawalpindi. O Afeganistão recupera a soberania e o controlo dos negócios estrangeiros. Em troca, aceita as fronteiras coloniais (a “Linha Durand”).

1923-1932 – Amanullah Shah promulga a primeira Constituição do Afeganistão, limitando as competências dos líderes tribais. Estes revoltam-se, obrigando-o a abdicar e a exilar-se.

1933 – Nadir Shah, herdeiro de Amanullah, é assassinado. Sucede-lhe o filho, de apenas 19 anos, Mohammad Zahir Khan (1914-2007), que se mantêm no trono durante quatro décadas.

1953 – O general Mohammed Daud Khan (1909-1978), sobrinho de Nadir Shah, toma posse como primeiro-ministro e avança com a modernização do país. Alarga a rede rodoviária, abre escolas em todas as províncias, defende a abolição do purdah, sistema que isola as mulheres em casa. Aproveitando-se da competição na Guerra Fria, tenta atrair ajuda dos dois blocos. Na criação do novo Exército Nacional Afegão, os EUA exigem que a sua ajuda passe pelo Paquistão, acérrimo anticomunista, visto por Washington como “o maior aliado dos aliados”. Daud Khan vira-se então para o “regime ateu” da URSS.

1963 – Daud Khan é forçado a demitir-se, depois de o seu projecto de um “Grande Pashtunistão”, que incluiria territórios do Paquistão, ter irritado o vizinho, que fecha a fronteira. A União Soviética torna-se, pela primeira vez, no principal parceiro comercial do Afeganistão.

1964-1965 – É introduzida uma monarquia constitucional. Zahir Shah admite a existência de novos partidos (etnonacionalistas, esquerdistas e islamistas). A Universidade de Cabul expande-se e abre-se a novas ideias. O véu e a burca tornam-se raros na capital, e as mulheres começam a participar na política e no governo. Em 1965, o Partido Democrático Popular do Afeganistão (PDPA), de ideologia marxista, realiza o seu primeiro congresso.

1973 – Em Julho, enquanto Zahir Shah descansava num luxuoso spa italiano, Mohammed Daud derruba o rei, com a ajuda do exército e do PDPA, e declara-se presidente. Durante os cinco anos da sua república, tenta estabelecer um Estado de partido único, mas rejeita um governo de estilo soviético.

1978 – Daud é morto num golpe de Estado. É proclamada a República Democrática do Afeganistão. Os golpistas põem no poder Nur Mohamed Taraki (1917-1979) e Hafizullah Amin (1929-1979), líderes da facção Khalq, a mais radical do PDPA. A este regime repressivo – dezenas de milhares de pessoas são mortas – opõem-se grupos de mujahedin (plural árabe de mujahid, com significado de “os que combatem a guerra santa pelo Islão”).

1979 – Em 4 de Fevereiro, rebeldes maoistas raptam e matam o embaixador americano, Adolph Dubs. Os EUA cortam todo o auxílio ao Governo afegão. Em 3 de Julho, o presidente Jimmy Carter autoriza a Operação Cyclone, para fornecer ajuda não-militar aos mujahedin. Em Dezembro, cerca de 100 mil soldados soviéticos invadem o Afeganistão, e Babrak Karmal, (1929-1996), dirigente da facção Parcham, a mais moderada do PDPA, assume a presidência da república.

1980 – Carter autoriza a CIA a fornecer armas aos mujahedin, que também recebem apoio militar do Paquistão, da China, da Arábia Saudita e de alguns Estados europeus.

1984-1985 – O milionário saudita Osama bin Laden (1957--2011) junta-se aos mujahedin afegãos numa aliança contra as tropas soviéticas.

1986 – A CIA começa a distribuir mísseis Stinger aos mujahedin para abaterem helicópteros soviéticos, dando-lhes vantagem na guerra.

1987 – Mohammad Najibullah (1947-1996), implacável chefe da polícia secreta afegã KHAD (equivalente ao KGB soviético), substitui Babrak Karmal como chefe do partido e presidente. Mostra-se disponível para criar um governo de coligação. Realiza eleições locais e aceita legalizar partidos da oposição, desde que não se oponham aos laços com a URSS. Aprova uma nova constituição, que reduz os poderes presidências e cria uma Assembleia Nacional.

1988 – Em Abril, o PDPA vence as eleições legislativas, boicotadas pelos mujahedin. No mesmo mês, em Genebra, a URSS, os EUA, o Afeganistão e o Paquistão assinam um acordo de paz. Em Maio, Mikhail Gorbatchov inicia a retirada das tropas soviéticas do “Vietname russo”. Em Agosto, Bin Laden cria a Al-Qaeda.

1989 – Em Fevereiro, fica concluída a retirada das tropas da URSS. Bin Laden regressa à Arábia Saudita.

1992 – Em Janeiro, a URSS cessa toda a ajuda a Najibullah. Com apoio do Paquistão, os mujahedin vão conquistando várias cidades. Em 14 de Abril, sem dinheiro e muitas deserções nas forças afegãs, Najibullah é forçado a demitir-se. No dia 16, facções dos mujahedin – excepto o grupo de Gulbuddin Hekmatyar – assinam o Acordo de Peshawar, que cria o novo Estado Islâmico do Afeganistão.

1994 – Em Novembro, uma nova milícia pashtun – os talibãs –, chefiada por Mullah Omar, conquista Kandahar e, em 1995, apodera-se de Herat.

1996 – Em Setembro, os talibãs entram em Cabul, onde introduzem uma versão rígida do Islão. Capturam, castram e enforcam Najibullah, refugiado desde 1992 no quartel-general da ONU. Bin Laden é expulso do Sudão, onde se instalara em 1991, e muda-se para Jalalabad. Aqui estabelece laços estreitos com os talibãs e declara guerra aos EUA, por terem enviado tropas para a Arábia Saudita.

1997 – O Paquistão e a Arábia Saudita reconhecem como governantes legítimos os talibãs, que já dominam dois terços do Afeganistão.

1998 – Bin Laden e o seu adjunto, o egípcio Ayman Al-Zawahiri (1951-), anunciam a criação da Frente Islâmica Mundial para a Jihad Contra os Judeus e os Cruzados. Num ataque coordenado, a Al-Qaeda destrói à bomba as embaixadas dos EUA no Quénia e na Tanzânia.

1999 – O Conselho de Segurança da ONU aprova a Resolução 1267, que impõe um embargo aéreo e sanções financeiras aos talibãs.

2001

Março – Os talibãs destroem os Grandes Budas de Bamyan, estátuas do séc. vi, património da humanidade.

Setembro – No dia 11, terroristas desviam quatro aviões comerciais e despenham-nos contra o World Trade Center, o Pentágono e uma base aérea na Pensilvânia, causando quase 3000 mortos e mais de 25 mil feridos. George W. Bush responsabiliza a Al-Qaeda pelo mais mortífero ataque em território dos EUA.

Outubro – No dia 7, uma coligação de forças americanas e britânicas invade o Afeganistão, na Operação Liberdade Duradoura, depois de os talibãs se terem recusado a extraditar Bin Laden. A coligação liderada pelos EUA alarga-se para incluir cerca de 40 países, que mobilizam mais de 140 mil militares.

Novembro – No dia 13, os talibãs perdem Cabul.

Dezembro – Numa conferência na Alemanha, sob os auspícios da ONU, as principais facções afegãs aprovam o “Acordo de Bona”, com vista à formação de um governo interino, presidido por Hamid Karzai (1957-), líder da poderosa tribo Popalzai, da confederação Durrani. No dia 7, após a perda de Kandahar, os talibãs e a Al-Qaeda recuam para a cadeia montanhosa de Tora Bora. No dia 16, Bin Laden foge para o Paquistão. No dia 20, a ONU cria a Força de Assistência de Segurança Internacional (ISAF, sigla inglesa), incorporando 48 exércitos estrangeiros, principalmente da NATO.

2002 – Em Junho, uma Loya Jirga, ou Grande Conselho (1550 delegados, dos quais 200 mulheres), reunida em Cabul, coloca Hamid Karzai na chefia da Administração de Transição Afegã.

2003 – Em 20 de Março, os EUA invadem o Iraque, acusando Saddam Hussein de armazenar armas de destruição maciça e apoiar a Al-Qaeda. Em Maio, os EUA anunciam o fim das principais operações de combate no Afeganistão. Em Agosto, a NATO assume o controlo da ISAF em Cabul.

2004 – Em 26 de Janeiro, Karzai ratifica uma nova constituição e, em 9 de Outubro, vence as primeiras presidenciais directas da história afegã, com 55,4% dos votos.

2005 – Em 23 de Maio, Bush e Karzai estabelecem uma parceria estratégica – Washington assumindo o compromisso de ajudar na reconstrução, segurança e democracia do Afeganistão. Em 18 de Setembro, seis milhões de afegãos votam nas primeiras eleições parlamentares e provinciais desde 1969, durante o reinado de Zahir Shah. Num “sinal de progresso” numa sociedade conservadora e patriarcal, dos 249 lugares da câmara baixa do Parlamento 68 são reservados a mulheres, tal como 23 dos 102 da câmara alta. Em 8 de Dezembro, a NATO aceita expandir a missão da ISAF, para assumir o comando militar da coligação liderada pelos EUA.

2008 – Bush envia mais 17 mil soldados americanos para o Afeganistão, depois de Karzai criticar os EUA por ataques arbitrários que matam dezenas de civis.

2009 – Em 27 de Março, Barak Obama, sucessor de Bush, anuncia uma nova estratégia: reforço da ajuda para estabilizar o Paquistão e envio de mais 4000 soldados para o Afeganistão. Em Novembro, a Comissão Eleitoral afegã declara Karzai o vencedor (54,6%) das presidenciais de Agosto, depois de o seu grande rival, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Abdullah Abdullah (1960-), se ter retirado antes da segunda volta. Em 1 de Dezembro, Obama envia outros 30 mil soldados – totalizam agora cem mil – para abrandar a progressão dos talibãs.

2011 – Em 1 de Maio, uma equipa dos Navy Seals mata Bin Laden no seu esconderijo em Abbottabad, no Paquistão. A liderança da Al-Qaeda é assumida por Zawahiri. Em 22 de Junho, Obama promete retirar as tropas americanas do Afeganistão até 2014. Os talibãs intensificam a insurreição.

2012 – Em 3 de Janeiro, os talibãs anunciam a abertura de uma missão diplomática em Doha, capital do Qatar, para facilitar negociações com os EUA.

2013 – Em 18 de Junho, a NATO transfere para o exército afegão o comando das operações militares e de segurança, cumprindo a promessa feita numa cimeira em Lisboa em 20 de Novembro de 2010.

2014 – Em 14 de Junho, realiza-se uma segunda volta das presidenciais, apesar da violência e acusações de fraude. Os resultados são inconclusivos. Em 21 de Setembro, os principais adversários, Abdullah Abdullah e Ashraf Ghani, assinam um acordo mediado pelos EUA, que designa o segundo presidente e o primeiro chefe executivo.

2015 – O Daesh surge no Leste do Afeganistão e, em poucos meses, conquista várias áreas controladas pelos talibãs. Em Julho, os talibãs confirmam a morte e Mullah Omar (em 2013), e nomeiam o seu sucessor, Mullah Akhter Mansour. Em Outubro, Obama anuncia que 9800 soldados americanos permanecerão no Afeganistão até ao final de 2016.

2016 – Em Maio, o novo líder dos talibãs, Mullah Mansour, é morto por um drone americano no Paquistão. Em Julho, Obama anuncia que 8400 soldados americanos ficarão no Afeganistão até 2017. A NATO aceita manter os seus militares até 2020.

2017 – Em 13 de Abril, os EUA fazem detonar a sua mais potente bomba não nuclear sobre um esconderijo do Daesh em Nangarhar. Em Junho, os talibãs conquistam Tora Bora, a antiga base de Bin Laden.

2018 – Trump nomeia Zalmay Khalilzad, um diplomata americano-afegão, para negociar com os talibãs, que recusam dialogar com o Governo afegão.

2020 – Em 18 de Fevereiro, a Comissão Eleitoral afegã declara Ghani vencedor das presidenciais, mas Abdullah, o rival, não reconhece os resultados. No dia 29, no Qatar, os EUA e os talibãs assinam um acordo que prevê a retirada total das tropas estrangeiras do Afeganistão até 2021, e inclui a garantia de que o país não será santuário de terroristas e a promessa de negociações intra-afegãs. Em Março, os EUA reduzem em mil milhões de dólares a ajuda ao Afeganistão, para forçar Ghani e Abdullah a evitar nova guerra civil. A agravar a situação, o Afeganistão enfrenta agora, também, a pandemia covid-19. (M. S. L.)

 

Fontes: Afghanistan: What Everyone Needs to Know, de Barnnett R. Rubin; BBC; Council on Foreign Relations; The Cairo Review.

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EDIÇÃO
Julho 2020 - nº 704
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