
Na vida real, ficamos muitas vezes por um “pois” mal colocado e um silêncio que parece escolha, mas é só hesitação com boas maneiras.
Há também pedidos de desculpa que nunca “usamos”. Partilhamos a estranha ideia de que haverá sempre tempo, como se ele fosse paciente. Não é. Passa, leva as oportunidades e, às vezes, leva também as pessoas antes das palavras. Quando damos por isso, já só restam versões imaginadas do que poderia ter sido dito.
Escrevemos mensagens que não são enviadas. Ficam ali, suspensas… versões mais claras, mais justas, mais corajosas de quem somos. Depois apagamos. Talvez por medo de exagerar, de incomodar, de não sermos correspondidos. Mas o silêncio raramente protege: apenas disfarça, apenas adia.
Inventamos conversas com quem já não está, porque nesse caso ninguém interrompe. Ensaiamos discussões com pessoas que ainda nem disseram nada. Uma espécie de preparação constante para um futuro que nunca chega exatamente como imaginámos… como se pudéssemos ensaiar a vida até ela nos correr bem!
E, no meio disso tudo, deixamos escapar as conversas mais simples: um “fica mais um pouco”, um “gostei disto”, um “desculpa”, um “tenho saudades”… talvez porque essas não admitem ensaio, e são por isso mesmo as mais difíceis.
Não será melhor trocar a eloquência tardia pela coragem imperfeita? Dizer mais cedo, dizer mais honesto, dizer mesmo assim. Porque o tempo não espera que encontremos a frase certa, se é que ela existe!
