
O mundo não é apenas um lugar maravilhoso, mas uma floresta de mistérios à espera de quem o saiba ler. Inspirado pelas pegadas de “Mowgli” e pela sabedoria de “Balú”, o Tiago compreendia que ser Lobito era uma arte: a arte da amizade, o valor do respeito e a doçura da entreajuda.
O grande dia amanheceu vestido de seda e sol. No adro da igreja, o Tiago sentia o estômago às voltas, como se mil borboletas tivessem decidido fazer ali o seu ninho. Hoje, ele deixaria de ser apenas um rapazinho para se tornar um guardião da natureza. A seu lado, com a serenidade de quem conhece os caminhos da alma, estava o seu padrinho: o Sr. Padre. Ter o pároco como guia nesta jornada tornava tudo mais sacramental, como se cada palavra da promessa fosse um fio de ouro a tecer o seu destino.
Com a mão firme e a voz clara como água da nascente, o Tiago prometeu fazer sempre o seu melhor. Sentiu então o peso suave do lenço amarelo sobre os ombros — a cor da luz que vence a sombra — e recebeu o seu (beret) boina azul, que brilha como o céu das grandes aventuras, lembrando que cada dia é uma oportunidade para sonhar mais alto.
— Da melhor vontade! — exclamou ele, e o lema ecoou no seu peito como um hino de alegria.
A prova de fogo não tardou. Poucos dias depois, a Alcateia partiu para uma floresta, onde os carvalhos pareciam gigantes a tocar o céu. Caminhavam com passos de veludo quando um gemido aflito vindo de um arbusto espinhoso os fez parar. Entre as silvas, um pequeno coelho debatia-se, preso numa rede de cordas antigas e esquecidas. O bando hesitou perante os espinhos, mas o Tiago sentiu o lenço amarelo arder-lhe no peito.
— Não tenham medo, vamos trabalhar em equipa! — ordenou com a coragem de um velho lobo. Enquanto uns tentavam acalmar o coelhinho, o Tiago e os companheiros lutaram contra os nós e as picadas das silvas. Quando a última corda cedeu e o coelho saltou, sentindo-se livre, o Tiago viu no olhar do animal um agradecimento que palavra alguma poderia exprimir. Era a sua primeira “Boa Ação”, o seu batismo na selva da vida.
Ao cair da tarde, o Tiago encontrou o seu padrinho sentado no banco de pedra do jardim da igreja. Ainda com a boina um pouco de lado e um pequeno arranhão na mão — a sua primeira "condecoração" — o menino contou a aventura. O Sr. Padre escutou-o com um sorriso de luz e, ajustando-lhe o lenço, disse com voz grave e terna:
— Sabes, Tiago, ser Lobito é como cuidar de um jardim. Às vezes, o mundo tem nós apertados e espinhos que magoam, mas tu e o teu bando levaram a luz onde havia medo. Esse lenço é amarelo porque deves ser o sol para quem está no escuro. Guarda sempre essa vontade de ser sempre melhor.
O Tiago deu um abraço apertado ao seu padrinho e, ao afastar-se, sentia que o seu caminho estava apenas a começar. Debaixo daquele chapéu castanho, já não batia apenas o coração de um menino, mas a alma de um verdadeiro escuta, pronto para transformar o mundo, num passo de cada vez.
Cristina Félix, jornalista
