
Narrador: Era uma vez num belo pomar.
Macieira: Nós estamos cheias de maçãs!
Laranjeira: Nós estamos a abarrotar de laranjas!
Pereira: Nós estamos carregadas de peras!
Margaridas: E nós somos flores lindas.
Narrador: Tudo era alegria no jardim, com exceção de uma árvore profundamente triste.
Carvalho: Eu não sei quem sou, nem o que tenho de fazer…
Macieira: Podias ser macieira e dar maçãs. São saborosas.
Margaridas: É melhor teres flores. Não vê como somos belas e bem-cheirosas?
Laranjeira: Perfeito era dares laranjas. Podias fornecer dezenas de quilos de fruta por ano, garantindo sustento e partilha. E o perfume doce e inebriante das minhas flores atrai polinizadores e perfuma o ar na primavera.
Pereira: Porque não tentas dar peras sumarentas e ricas em vitaminas? Também na primavera, acontece a minha espetacular floração branca.
Carvalho: Vocês confundem-me ainda mais. Não veem que não me pareço em nada com nenhuma de vocês?
Narrador: Uma coruja, que é a mais sábia das aves, passou pelo pomar e não ficou indiferente ao desespero da árvore.
Coruja: Não te preocupes, carvalho! O teu problema não é grave. Muitos seres na Terra têm-no. Vou dar-te umas dicas. A fim de não te confundires com o que os outros querem que sejas, ouve a tua voz interior: ela irá dizer-te quem és e qual é a tua missão neste mundo.
Carvalho: Ser eu mesmo? A minha voz interior? Missão?
Coruja: Faz essas perguntas a ti mesmo. E ouve-te.
Narrador: E fez-se silêncio no pomar.
Carvalho (fechando os olhos): Sim, estou a ouvir: «Tu jamais darás maçãs, porque não és uma macieira; não vais florescer em cada primavera, porque não és margarida, nem concederás quilos de fruta por ano porque não és pereira nem és laranjeira. Tu és um carvalho. A tua missão é crescer e ser majestoso. Vais proporcionar abrigo às aves, sombra aos viajantes, beleza à paisagem, madeira para mobiliário sumptuoso e as tuas bolotas alimentarão animais do campo.»
Narrador: O carvalho cresceu forte e seguro de si. Preparou-se para ser tudo para o qual foi concebido. Era admirado e respeitado por todos. E o pomar era completamente feliz.