
Títulos: The Long March, Ascent - Alternative Silence, At Dawn
Autores: Le Trio Joubran
Disponíveis em plataformas digitais

O título da música tem origem num poema do poeta Mahmoud Darwish (1941--2008), uma das vozes mais importantes da poesia palestina: «Os mortos que morrem para carregar a terra depois de as relíquias terem desaparecido.»
A música é uma homenagem a quatro jovens primos assassinados por forças israelitas enquanto jogavam futebol na praia de Gaza, em 2014. «Rapazes, os rapazes das mães,/ os rapazes dos pais,/ os vossos rapazes,/
/mas também, no fim,/ os nossos rapazes também,/ os nossos rapazes,/ todos os nossos rapazes.» A música e o disco pretendem ainda ser um tributo aos «que morrem pela sua terra e carregam a terra com a sua morte, a todas as crianças deste mundo que sofrem com o exílio, com a ocupação, com a pobreza», bem como aos povos indígenas de todo o mundo e aos direitos dos palestinianos.
Hoje, Gaza continua a ser morta por um regime e um governo que desprezam os mais elementares direitos. «The Long March» («A Longa Marcha»), último álbum do grupo, já com alguns anos, serve-nos uma música por vezes hipnótica (The Hanging Moon, «A lua suspensa»), por vezes melódica, triste e dançante (The trees we wear, «As árvores que vestimos») por vezes arrebatada (Our Final Songs, «As nossas últimas canções») – trazendo-nos o deserto, abraços sofridos, estradas de escombros ou olhares de esperança. Sempre com os ouds no centro de uma música onde entram sintetizadores, flautas, piano, cordas – e vozes.

A «The Long March» seguiram-se vários singles: «Ascent» (2021), «Alternative Silence» (2024) e «At Dawn» (2024). Neste último, o poema fala da planície e de azeitonas (e que sabor ouvir alzaytūn, em árabe...), que mantêm a grande qualidade musical. «O Trio Joubran, na sua exuberância brilhante e ardente, transmite uma mensagem: a Palestina está viva», disse Brian Eno, que produziu o álbum.
Uma das vítimas da destruição dos colonos e do exército israelita em Gaza e na Cisjordânia são milhões de oliveiras plantadas durante décadas pelos palestinos – árvores que «vestem» famílias e foram destruídas pelo ódio militarizado. Em Time Must Go By («O tempo tem de passar»), com parte de um poema de Mahmoud Darwish, o próprio autor declama (e vale a pena reproduzir boa parte do poema):
Passará muito tempo até que o nosso presente se torne
passado, tal como nós
Caminharemos para a nossa morte; antes disso,
defenderemos as árvores que nos vestem
E o sino da noite, a lua que, sobre as nossas cabanas, tanto ansiamos
[...] defenderemos o barro dos nossos oleiros
E as nossas penas nas asas das últimas canções
Daqui a pouco, erguerão o vosso mundo sobre o nosso
A partir dos nossos cemitérios, abrem caminho para o satélite [...]
De um pedaço de carvão brota o champanhe dos poderosos
Lá há mortos e colonatos, mortos e bulldozers
E mortos e hospitais, e mortos e ecrãs de radar que
monitorizam os mortos [...]
E os mortos morrem para carregar a terra sobre os
restos mortais
Para onde, senhor dos brancos? Levas o meu povo e o teu povo.
