

Título: Hoggar
Autores e intérpretes: Tinariwen; participações especiais de José González e Sulafa Elyas
Disponível em plataformas digitais
À segunda música, Imidiwan Takyadam, vemos, ao longe, um grupo de nómadas tuaregues em redor de uma fogueira, à conversa: «Amigos,/ Vejam o que vos aconteceu./ [...] Esqueceram-se das vossas irmãs,/ Que deixaram para trás,/ A viver sob uma tirania infernal/ Que queima cada coração vivo?» Ouve-se Hoggar, o novo disco dos Tinariwen, e escuta-se a cultura nómada que subsiste neste povo do deserto. E escuta-se também o apelo à resistência cultural – e política, se considerarmos o absurdo mapa africano traçado a régua e esquadro na Conferência de Berlim (1884- -1885). Os Tinariwen (palavra tuaregue para “desertos”) nasceram no deserto do Mali no final da década de 1970, sob o impulso de Ibrahim Ag Alhabib, que em criança começou por construir instrumentos com latas e madeira. Influenciado por Bob Marley, Led Zeppelin, Carlos Santana, Jimi Hendrix ou Dire Straits (e a par do nível dos malianos Ali Farka Touré ou Toumani Diabaté, a sua música alia os blues ao eléctrico, ao acústico e ao canto comunitário, criando uma rara ambiência musical, rítmica e espiritual, que se torna quase hipnótica. Por tudo isso, eles são hoje uma das bandas africanas mais importantes, propondo a afirmação cultural em vez dos conflitos. «Amigos, levantem o olhar./ Quais são as nossas correntes? [...] Olhando para o mesmo céu./ Vivemos sob o mesmo sol.»

Título: Piae Cantiones
Intérpretes: Utopia Chamber Choir; dir. Lawrence-King
Edição: Alia Vox
Disponível em lojas e plataformas digitais
O título é (meio) enganador: a maior parte dos textos e músicas reunidos neste Piae Cantiones (Canções Espirituais) são temas religiosos, mas o repertório inclui canções de entretenimento extracurricular para os estudantes de Turku, cidade do Sul da Finlândia (em “frente” dos países bálticos) onde este cancioneiro nasceu. Há ainda, enumera Andrew Lawrence-King, cantigas com ritmos de dança, refrões cativantes como em Gaudete, o contraponto renascentista de Jesu dulcis memoria ou a contenção austera da melodia semelhante a um canto em Angelus emittitur, a primeira canção da colectânea e quinta na ordem do disco. Piae Cantiones, descreve também Lawrence-King, foi o primeiro livro impresso de música finlandesa, publicado em Greifswald em 1582 sob a direcção de Theodoricus Petri Rutha, estudante finlandês da Universidade de Rostock (Alemanha); Jaakko Suomalainen (Finno), foi o editor das canções e textos, além de ser director da Escola da Catedral de Turku e de ter publicado o primeiro hinário finlandês. A diversidade melódica das canções transporta-nos para sonoridades medievais, litúrgicas, dançantes ou de celebração de momentos comunitários com uma qualidade musical e de interpretação irrepreensíveis, a que a edição da Alia Vox confere o nível de exigência a que nos habituou. Uma preciosidade.
