Igreja
19 maio 2026

«Olha para mim»

Tempo de leitura: 5 min
O padre Pepe Girau, missionário comboniano, conta-nos a experiência pastoral de quatro jovens estudantes de Teologia no grande complexo prisional de Ankaful, em Cape Coast, no Gana.
P. Pepe Girau
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grande complexo prisional de Ankaful situa-se a cerca de seis quilómetros de Cape Coast, a cidade ganesa onde nós, Missionários Combonianos, temos um escolasticado internacional no qual sou formador. Quatro jovens estudantes de Teologia realizam o seu apostolado em duas das seis prisões de Ankaful. Todos os sábados de manhã os levo de carro e regresso a casa depois de cumprimentar o director da prisão e alguns dos reclusos. Antes, ficava lá toda a manhã e regressávamos juntos, mas percebi que era melhor que os jovens escolásticos não fossem condicionados pela presença do formador e que levassem a cabo sozinhos este apostolado penitenciário.

A nossa presença em Ankaful remonta a 2019. Juntamente com o formador principal, o padre Antoine Kondo, procurávamos experiências de apostolado que fossem significativas para os nossos jovens que se preparam para a vida missionária. A oportunidade surgiu quando o padre Joseph, um sacerdote diocesano que exerce funções de capelão católico no centro penitenciário, nos ofereceu a possibilidade de o visitar.

Nos primeiros meses, fui lá para conhecer a prisão a que chamam CDP, uma das mais abertas, com reclusos que não cometeram crimes violentos. Há cerca de 70 reclusos, muitos dos quais sofrem de doenças infecciosas ou são portadores do VIH, embora tenham um bom acompanhamento médico. Pareceu-me um local ideal para o apostolado dos nossos jovens e pouco depois dois começaram a visitá-la regularmente. Mais tarde, foi-nos oferecida a oportunidade de alargar o apostolado ao centro a que chamam Anexe, com quase 800 reclusos. Agora, são quatro escolásticos a deslocarem-se às duas prisões.

 

Partilha da Palavra de Deus

Às sextas-feiras à tarde, reúnem-se para preparar o tema que irão abordar no dia seguinte. Por volta das oito da manhã de sábado, e durante cerca de uma hora e meia, reúnem os reclusos que o desejam e comentam com eles a Palavra de Deus do domingo. Fazem-no num estilo muito africano, com a participação das pessoas, dando exemplos e respondendo às perguntas que surgem.

É curioso, mas a atitude dos reclusos não é de indiferença em relação à Palavra. Pelo contrário, manifestam um grande interesse, talvez porque vivem uma situação particular de angústia, privados de liberdade e com dificuldades adicionais, como a escassez de comida. Aqueles que se aproximam destes encontros não são apenas os poucos católicos que há na prisão, mas também metodistas, pentecostais ou evangélicos.

Após este encontro, os escolásticos, que estão autorizados a circular livremente pela prisão e até a entrar nas celas, passam o resto da manhã a conversar num ambiente de camaradagem e amizade com os reclusos, que são malvistos pela sociedade e de quem as pessoas se afastam, por isso apreciam muito o «look at my face» («olha para mim»), que, de certa forma, lhes devolve a dignidade.

Os domingos são dias de culto. Como há tantas confissões cristãs, na prisão elaboram uma lista e, quando chega a vez dos católicos, celebro ali a missa. Participam fiéis de todas as confissões numa espécie de ecumenismo.

É maravilhoso ouvi-los cantar e dançar com alegria, mas também guardar um silêncio respeitoso durante a consagração.

 

Promoção humana integral

Nós, Combonianos, vivemos a missão na sua dupla dimensão de anúncio do Evangelho e promoção humana. Por isso, iniciámos na prisão um projecto de criação de coelhos e de um roedor de grande porte e carne muito saborosa, o rato-do-canavial, a que aqui chamam grasscutter.

Senti-me feliz ao levar o material para construir as gaiolas e a formar os reclusos na criação destes animais. É gratificante vê-los tão contentes pelo bom trabalho que estão a fazer, além de que essa carne lhes vem muito bem para melhorar a escassa alimentação que o Estado lhes fornece. Contamos também com o apoio de Michael, um amigo veterinário que vai à prisão de vez em quando para se certificar de que tudo corre bem.

Fruto deste apostolado, fizemos bons amigos, como o Philip, que saiu da prisão há dois anos, casou-se, tem uma filha e, de vez em quando, vem a nossa casa para nos cumprimentar. Outros também vêm, mas para nos pedir dinheiro. É preciso aceitar isso, faz parte do apostolado quando se trabalha com pessoas vulneráveis.

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Maio 2026 - nº 768
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