Sala de convívio
24 junho 2020

Para lá das palavras

Tempo de leitura: 2 min
Esta pandemia e as mudanças súbitas a que obrigou configuram uma metacrise.
Hélder Guégués
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Passados dois meses em confinamento mais ou menos rigoroso, eis que toda a gente, em todo o mundo, quer voltar à normalidade. Mas devemos desejar tal? Talvez não, se esse normal desejado for exatamente o normal que conduziu ao desastre, à crise. Fala-se aqui noutra página deste número da Audácia da etimologia da palavra «crise» – que é um momento de decisão, de mudança súbita, enfim, um momento difícil e decisivo. Crises tem havido várias, agora e sempre. Esta pandemia e as mudanças súbitas (e algumas, suspeita-se já com grande probabilidade de acerto, duradouras quando não para sempre) a que obrigou configuram uma metacrise – anotem aí no vosso caderninho de novas palavras –, quer dizer, uma crise que corre o risco de ser definitiva e que envolve princípios. É uma crise profunda que afeta o liberalismo, o capitalismo e a democracia.

Queremos mesmo voltar ao normal de sociedades da abundância, e sobretudo do desperdício, do Ocidente a par de uma parte significativa do mundo, em especial na África e na Ásia, com milhões de seres humanos que, quando se levanta o Sol, não sabem se vão comer nesse dia? Queremos mesmo voltar ao normal que é, mesmo neste Ocidente próspero, ter grandes executivos de empresas a ganharem num ano o que a generalidade das pessoas não alcançará numa vida inteira de trabalho? Queremos mesmo voltar ao normal que é ficarmos embasbacados com a vida faustosa que os nossos ídolos, desportistas e cantores, ostentam nas redes sociais e, ao mesmo tempo, acharmos natural que haja pedintes subnutridos à porta dos supermercados nos grandes centros urbanos?

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EDIÇÃO
Julho 2020 - nº 587
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