Opinião
02 outubro 2026

A Escrita Liberta

Tempo de leitura: 3 min
Escreveu Jean Guitton num livro sobre o trabalho intelectual: «A frase mais insignificante vale mais que o papel branco.» Creio haver poucos que se dão conta de que escrever é muito mais do que pensam. É um acto humano que desenvolve a vida interior, criando o espaço que faz ressoar a voz de Deus.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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Blaise Pascal tinha o hábito de registar tudo o que lhe vinha à cabeça em papéis soltos que mais tarde foram editados na sua obra Pensamentos. Um acto que seria depois explicitado pelo escritor francês Stendhal (pseudónimo de Henri Beyle), ao recordar na Vida de Henry Brulard o conselho que um homem sensato lhe teria dado: «Escreva todos os dias durante duas horas, génio ou não.» Não havia propósito senão o de dar forma exterior ao acto interior de um pensamento.

Numa época como a que vivemos, em que as pessoas andam sempre de um lado para o outro, numa azáfama que retira espaço na vida para a pausa, nunca foi tão importante pensar nas pequenas coisas que nos ajudam a evitar a fome interior que passa despercebida. Uma fome esquecida de profundidade. Estamos na Era da Pós-Profundidade, como diz o ensaísta João Sevilhano no livro com esse título, onde se mercantiliza o que é profundo, reduz-se sabedoria a «conteúdo» e transfigura-se complexidade em produtos simples e prontos a consumir. Sentarmo-nos um pouco, contemplar o espaço que nos rodeia, pousar o lápis na folha e escrever, tornou-se um luxo para quem sente o tempo que tem a esvair-se.

Escrever é uma forma de recuperar o preço que pagamos em tempo de vida quando cedemos à manipulação do entretenimento fácil. Ninguém é imune a essa cedência. Até eu. Sobretudo eu. Mas o pensamento que me liberta dos grilhões do tempo perdido é a sabedoria que se esconde na simples ideia de que podemos sempre recomeçar. Recomeçar a escrever sem que seja uma assinatura, ou preenchimento de um formulário é uma forma de voltarmos a encontrar o espaço na vida para nos darmos conta de como somos seres profundos. De que o cuidado da vida interior não tem preço e pode tornar-se numa fonte de sentido e significado para cada respiro.

Todos experimentamos como as cores saturadas dos ecrãs reduzem a tela da vida que se desenrola aos nossos olhos, mas abrem a vista ao mundo. Como a possibilidade de nos conectarmos com quem está longe é um dom viabilizado pela tecnologia. Mas escrever? Para quem não tem o hábito, pode ser penoso como levantar um saco de batatas em cada mão. É a falta de vontade que transforma o peso do lápis de madeira em chumbo. Qual poderia ser o primeiro e mais simples passo libertador?

Não sei. Atrevo-me a sugerir que podemos experimentar escrever sem pensar. Isto é, não pensar que algo escrito será lido por alguém que não nós próprios. De cada vez que fiz esta experiência senti como foi libertadora porque a vida interior que não flui para fora de nós pode deteriorar-se. Daí que escrever possa ser um acto libertador que abre espaço ao Infinito mais interior a nós do que nós relativamente a nós próprios e que nos ama imensamente. É o Essencial. É Deus em nós.

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Outubro 2026 - nº 772
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